Bosques da Moira

Página dedicada aos trabalhos do escritor e músico recifense André de Sena

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Nome: André de Sena
Local: Recife, Pernambuco, Brazil

28.10.09

LANÇAMENTO

"Miratio" é o novo livro do autor recifense André de Sena, lançado pelo selo editorial Draco Publicações (de propriedade do autor). A obra conta com quarenta poemas inéditos, entre versos brancos e sonetos. Para adquirir um exemplar, escreva para o mail bosquesdamoira@yahoo.com.br


POEMA DE ABERTURA:

Abditae causae

Fraco mortal, que aspiras às sutis essências,
ao círculo das formas, ser das aparências,
qual cristalina água, a perscrutar o seio
do que há intangível, à matéria em meio,
estás cansado e choras (só te embala o vento
o ecoar da ampulheta num abismo lento)
e, cerzindo a tristeza triplos espantalhos,
ousas vibrar ainda o alaúde em atalhos.
Porque por mais que busques a tudo o silêncio
(o silêncio é cantar para os astros suspensos,
a música inaudível das esferas vastas –
tem-se a impressão mas nunca o som e a nota casta),
cantando seguirás, mesmo em padecimento
de, na verdade, não haver ouvido atento.
E o entardecer se expande em fogo na floresta;
há vária explicação e, também, vária festa:
é bom ouvir às árvores e aos animais,
às estéreis montanhas que exsudam cristais,
aos gemidos dos ventos adensando a trama
das águas nos rios, de verdes bosques às ramas;
como cabrito atado à mãe e à dura teta,
se entretém os infantes co’ agrestes cornetas...
toda a natura segue a prumo seus alvitres,
somente o ser pensante e o poeta, esses biltres,
apartam-se de tudo, buscando esse tudo –
e responde o universo só um grito mudo.
São necessários sismos à rija estrutura,
conhecidos venenos a aprestar as curas;
assim o canto irrompe e o solitário vate
encetará co’a própria lira um vão combate
(oleiro do vazio, em sonhos se desdobra,
que decerto é ilusão alquimia e grã obra;
por mais difícil que seja, crê na aventura –
que a razão é a loucura da própria loucura);
porém à força mesmo de enformar os ventos
mostrarás quão profundos são os teus lamentos.

NOVIDADES

FREEPORTO

Entre os dias 6, 7 e 8 de novembro de 2009, Recife contará com um dos mais interessantes eventos de literatura dos últimos tempos, a Freeporto, organizado e idealizado pelo coletivo Urros Masculinos, composto por poetas jovens em idade mas já maduros em termos de produção literária e crítica acadêmica. A agenda do evento está recheada de saraus e pretende ser anti-convencional no melhor sentido da palavra, ao propor, por exemplo, "anti-oficinas" e "anti-lançamentos", além de curiosas sessões de entrevistas como a do estudioso, escritor e "agitado cultural" Jomard Muniz de Brito, a ser sabatinado por um grupo de pessoas portando máscaras de raposa. Em tempo: o símbolo do evento, que aparece no cartaz abaixo, é uma raposa soturna que parodia a Feira Literária de Porto de Galinhas (Fliporto), a ocorrer no mesmo período (a raposa que come as galinhas...). Para além de toda a ironia, o evento proporcionará a interação entre autores da nova geração recifense - poetas e contistas como Bruno Piffardini, Artur Rogério, Wellington de Melo, Cristhiano Aguiar, e tantos outros, e alguns veteranos especialmente convidados, como Lucila Nogueira, Marcelino Freire e outros mais. Os saraus da Freeporto realizar-se-ão no bar Casa da Moeda (Recife Antigo, próximo ao Paço Alfândega) e pelas ruas adjacentes. No sábado, dia 7, André de Sena lerá alguns poemas de "Miratio" ao som da guitarra de Washington Silva, do veterano grupo de heavy metal recifense The Ax.
PROGRAMAÇÃO DO SÁBADO, DIA 7 DE NOVEMBRO DE 2009:

17h30 – Curto-circuito 1 – Apresentações literárias em alta-voltagem. Com:
Artur Rogério (PE) e Daniel Rangel (PE)
Gerusa Leal (PE) e Flô (PE)
André de Sena (PE) e Washington (PE-guitarrista)
Delmo Montenegro (PE) e Thelmo Cristóvam (PE)
Valmir Jordão (PE) e Tales Ribeiro (PE)
Fernando Farias (PE) e Priscila Faisbanchs (PE)
Marcelino Freire (PE) e Ivana Arruda Leite (SP)
Natália Parreiras (RS) e Paulo Scott (RS)
Felipe Júnior (PE) e Mariane Bigio (PE)
Wellington de Melo (PE) e Amanda Moraes (PE)
Lara (PE) e Fernando Chile (PE)

Dentro do evento, também será lançada a obra "Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali", com poemas e contos da nova safra de autores recifenses. Confira a programação completa no site do evento: http://freeporto.wordpress.com/


TESE DOUTORAL

A tese "Visões do Ultra-romantismo: melancolia literária e modo ultra-romântico" está em vias de finalização e será defendida por André de Sena no primeiro semestre de 2010, no Departamento de Pós-graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Pernambuco. "Visões do Ultra-romantismo" vem sendo escrita há três anos com a meta de propor um novo olhar crítico - dentro dos estudos da literatura oitocentista européia e brasileira - sobre o chamado Ultra-romantismo (poética e prosa mal du siècle, weltschermerz, spleen, ennui, Segunda geração romântica brasileira, etc.).

REVISTA POESIA SEMPRE

Os poemas brancos “As palavras” e “O besouro” e o soneto “Paradoxo”, de André de Sena, acabam de ser publicados na mais nova edição (nº 29) da revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, lançada no mês de maio de 2009. O novo número da revista é dedicado à Sérvia, cuja literatura ganhou um novo impulso com a publicação de coletâneas da tradição oral e com a reforma da língua literária, ocorrida no século XIX. O volume traz ainda ensaios sobre música e literatura, uma entrevista com o poeta norte-americano Mark Strand e um ensaio fotográfico de Waltércio Caldas.



REVISTA INVESTIGAÇÕES

A mais recente edição da revista Investigações, do Programa de Pós-graduação em Teoria da Literatura e Lingüística da UFPE (PPGL-UFPE), lançada em fevereiro de 2009, traz o artigo “Breves apontamentos sobre a poesia hermética”, assinado por André de Sena. Todos os artigos desta publicação estão disponíveis para leitura na página do PPGL (www.ufpe.br/pgletras) ou no link http://www.ufpe.br/pgletras/Investigacoes/volume-21-N1.html


LIVRO DE CRÍTICA LITERÁRIA DEDICA CAPÍTULO A “BOSQUES DA MOIRA”, DE ANDRÉ DE SENA

(Texto da repórter Oziella Lima extraído do jornal “Diário da Borborema” de 2/09/09 – Link http://www.diariodaborborema.com.br/2009/09/02/cultura2_0.php)

OBRA REVERENCIA NOMES DA LITERATURA

Uma coletânea de ensaios que reúne erudição e sensibilidade, sem o habitual tédio e hermetismo que permeia boa parte das publicações saídas da Academia. Assim poderia ser resumido o livro Os abismos do ser, de autoria de José Mário da Silva. A publicação foi lançada recentemente, com o selo das Edições Galo Branco, uma das maiores do Rio de Janeiro, inserida na Coleção Ensaio, dirigida pelo professor carioca Gilberto Mendonça Teles.
Para o escritor, estes dois fatores já se configuram como um motivo a ser celebrado. “É muito difícil entrar nesse eixo do Sudeste e admiro sobremodo a obra de Teles; é um dos maiores escritores contemporâneos”, explicou. Os abismos do ser é resultado de três anos de escrita e reúne alguns textos inéditos e outros publicados em veículos diversos, conforme relatou.
A publicação percorre a obra de figuras canônicas da literatura, como Jorge Amado, Lêdo Ivo e João Cabral de Melo Neto e também autores emergentes, a exemplo de André de Sena, Nauro Machado e Luís Augusto Cassas. “A escolha teve como base a qualidade estética dos escritores. A literatura é um sistema que se renova, os clássicos sempre serão revisitados, mas também é preciso conhecer aquilo que se produz na atualidade”, apontou.
O professor doutor em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Antônio Carlos Sechinn, assina um breve texto na contracapa de O abismos do ser. Nela, o docente destaca uma erudição que não é invasiva ou pesada na escrita de José Mário. “Há uma sensibilidade que se desvela no diálogo fino e amoroso com a obra analisada, detectando-lhe a íntima pulsação e a carga de humanidade que o texto carrega”, diz.
Certo é que Mário, conhecido pelo veio poético de seus textos, prefere ser compreendido, a escrever para si mesmo ou para um pequeno grupo. “A escrita narcísica é limitadora. A linguagem não pode ser inacessível. De minha parte, existe todo um cuidado com a teoria, mas isso vem acrescentar elementos ao texto e não torná-lo pesado”, contou o autor.
O poeta e crítico literário, membro da Academia Paraibana de Letras (APL) e doutor no citado curso, Hildeberto Barbosa Filho, assina o prefácio. Para ele, nesta coletânea de ensaios, José Mário demonstra um raro compromisso com a crítica. “Não é qualquer um que pode correr o risco de estabelecer o diálogo sensível e inteligente com os arquitetos da palavra”, revelou.






Ars longa vita brevis

ALGUMA CRÍTICA



BOSQUES DA MOIRA - POESIA FANTÁSTICA

(Por Ana Paula Pessoa, publicada no jornal Correio da Paraíba, em 18/02/06)

Escritor e músico recifense, nascido em 26 de novembro de 1975, André de Sena Wanderley desde cedo iniciou-se no mundo da criação e da contemplação artísticas, obtendo o grau de Mestre em Literatura aos 26 anos de idade, no ano de 2002. Paralelamente ao seu trabalho diário como cronista cultural em veículos jornalísticos, sua poesia, que oscila entre o fantástico, o aleatório e o macabro, vem sendo publicada em revistas, jornais literários e em edições de tiragens limitadas feitas para serem distribuídas entre os amigos, mas muitos autores profissionais já se pronunciaram sobre ela. Constituídos, em geral, de versos curtos e brancos, os poemetos senianos vivem em uma atmosfera fantástica e são chamados pelo autor de “bárbaros” ou “filhotes de dragão”. Um escritor acadêmico diria que não foram feitos para o bronze, mas em minha opinião eles se bastam em termos de estranheza e liberdade expressiva, bárbara mesmo.
O primeiro livro de André de Sena, Bosques da Moira, foi lançado em uma tiragem limitada de 200 exemplares distribuídos entre os amigos, em 2003. Depois foi relançado em uma edição oficial, de grande tiragem, revista e ampliada, com 60 “poemas bárbaros”, pelo selo editorial do autor, Draco Publicações, em novembro de 2005.
De acordo com o poeta Políbio Alves (Personalidade Cultural da União Brasileira dos Escritores e Autore dell'Ano de 1999 pelo IBE - International Board Examiners), em um artigo de jornal publicado com o nome “O Bosque, a Moira e a Poesia”, “poucos textos poéticos têm o encanto, a magia e a densidade dos poemas senianos, que conjugam a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem. Encontro neles um convívio prazeroso, numa outra dimensão que não a da vida cotidiana”. No mesmo texto, Políbio chama atenção para os leitores não acostumados com os usos da poesia de cunho fantástico: “aos leitores por águas nunca dantes navegadas, cuidado com a travessia, muito cuidado. Chegar ao coração do poema equivale a debruçar-se além da escritura poética e deixar-se impregnar totalmente por ela. Os seus poemas são como uma fronteira entre o profano e o divino, o subnatural e o tangível”.
Outro crítico que se pronunciou acerca do trabalho de André de Sena foi o escritor português Antônio Soares, em outra resenha de jornal. O mesmo declarou: “em seus poemas pode-se encontrar o calor antigo da poesia, que só poderá ser detido nas estruturas metafóricas de um imagismo peculiar, portanto inovado”. Soares explicitou o desconstrutivismo flagrante nos versos senianos, manifesto no ato de refazer termos e expressões de sentido oximórico e, também, nas imagens cromáticas, vivas, repletas de elementos sinestésicos. “Nesse concentrar-se ou constante volver-se sobre si mesmas, se estruturam as forças dinâmicas, subjacentes, modeladas em sentimentos, fantasias, intuições, traços oníricos que desestruturam e quebram as barreiras da horaciana arte poética. O real dilui-se no fantástico e um avanço sinestesicamente mágico suspende tudo”.
Mais um poeta veterano a escrever uma resenha sobre a carpintaria poética de André de Sena foi Sérgio de Castro Pinto. Em um texto publicado com o título “Poesia pra ser lembrada”, disse que “sua poesia contraria o poema metalingüístico, se considerarmos como tal aquele que veicula apenas a preocupação do poeta com a linguagem. E isso porque, se as vanguardas cultivaram seu discurso metalingüístico subordinadas à razão, o de André de Sena não se mostra regido pelo sol a pino do meio-dia. O que não o impede de convocar palavras luminosas, solares, com o intuito de lançar luz sobre um universo impregnado de sombras. Tudo se opera como se o sol de suas palavras perdesse o pino e descortinasse um mundo surreal em plena luz do dia”. No mesmo texto, Castro Pinto evocou o padrão das antigas parlendas presente em muitos de seus poemetos, que são comparados às quadras de feitiços medievais e à linguagem hipnótica das crianças. Outros críticos filiaram sua poesia versolibrista como uma encruzilhada entre o simbolismo e o surrealismo que geraria, em muitas ocasiões, uma linguagem hermética que tenderia ao infinito e ao aleatório.
Isso foi corroborado em um texto publicado na Revista Encontro, do Gabinete Português de Leitura, escrito pela Doutora em Literatura e também poeta Lucila Nogueira, que ressalta os aspectos góticos da carpintaria seniana. Segundo ela, “André de Sena realiza uma evolução do poema de forma fixa à dicção contemporânea; ao mesmo tempo, a atmosfera gótica que nos invade à leitura de seus versos demonstra uma sintonia com elementos mágicos da natureza a que não foram insensíveis historicamente os grandes escritores, o que transforma a sua oração do segredo noturno em feitiço sobrenatural”. E, concluindo, pergunta-se a autora: “Diante de uma poesia como essa o que se pode fazer a não ser resgatar, com André de Sena, o caráter da poesia como talismã mágico do início da espécie humana?”.
Em suma, estando mais afeita ao sentimento poético do que às exegeses téorico-literárias, comparo os poemas senianos com a estrutura de sonho de um arabesco maravilhoso que sua obra futura com certeza poderá edificar. Quando recebo um de seus pequenos livrinhos coloridos, na verdade, capítulos divulgados antes da impressão de uma nova obra, descubro que ele é um desses autores que, ao invés de contemplar a superfície do Ideal, preferem mirar o que há de mais sombrio na própria invenção. Continuo lendo seus “filhotes de dragão” com a mesma sensação “de quem abre um baú cheio de coisas misteriosas”, como falou outro leitor de seus poemas. Em seus versos livres, às vezes me engasgo com estranhas belezas em estado puro.


OS PÂNTANOS DA CULTURA

(Crítica publicada no Jornal da Paraíba pelo poeta Políbio Alves)

Poucos textos poéticos, aqui da província do Varadouro e de outras alhures têm a magia, o encanto e a densidade destes poemas, Bosques da Moira. Sobretudo em que a capacidade de convivência entre a aura e a sedução das palavras revela um autor que conjuga a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem.
Encontro nos Bosques da Moira um convívio prazeroso, numa outra dimensão que não a da vida cotidiana. Decerto, a paixão, o impulso desatado, sensorial e orgânico em busca dos caminhos para chegar ao reino da Origem, o Mito, entendido não como fantasia irresponsável, ms como o poder instaurador do mundo e do homem. Basta lembrar que nas palavras de Paracelso – 1493-1541 (Felipe Auréolo Teofrasto Bombasto de Hohenheim, mago, alquimista, médico escritor de grandes obras filosóficas e religiosas, nascido em Eisiendeln, povoado da Suíça), Azoth é o princípio criador da natureza ou a força vital espiritualizada. Cherio é a quintessência de um corpo, seja ele animal, vegetal ou numeral; é o seu quinto princípio ou potência. Derses é o sopro oculto da Terra que ativa seu desenvolvimento. Ilech Primum é a Força Primordial ou Causal. De fato, um texto que reflui, o tempo, matéria de estranheza e memória. E ainda pode ser lido como um livro de parábolas – coisas de poeta – centrado na diversificação das mitologias que rege o universo pessoal e impessoal do homem.
Bosques da Moira é mais do que um livro de poesia: é a fronteira entre o profano e o divino, o subnatural e o tangível, através do sonho e da imaginação fértil do poeta. Em suma, é a incandescência lúcida e alucinada do proibido, a excitação do mistério, a ambigüidade do prazer e a resplandecência da vida. Sim, em confluência com os dogmas de nossas ações-reações culturais e estéticas. É isso. Os pântanos da escritura de André de Sena nos remetem a medida de sua poesia – um belo instante de comvida expressão de atmosferas, ossificado no seu itinerante veio de criatividade. Assim, de certo modo, no dizer de uma estrofe de Virgílio, “Eu tiro ouro do estrume Ênio”.
Nesta perspectiva, este texto revela uma direção talhada pela transgressão humana. Ao leitor por águas antes nunca navegadas, cuidado com a travessia, muito cuidado. Chegar ao coração do poema, creio, é você se debruçar sobre a escritura poética e deixar-se impregnar por ela. Essa impregnação se faz, por exemplo, através de leituras não analíticas, até você se sentir penetrado pela semântica do poema. Os restos são glosas, simplesmente variações em torno de. Nos tempos de hoje, apesar de tanta mediocridade, André de Sena não é um poeta do entretenimento. Confesso, sua poesia me conduz a uma aprazível expectativa. Na verdade, seu livro é um esconder-se e um mostrar-se, em trânsito, no sentido de aferir a emoção e a vida.


A SUBVERSÃO PELO SONETO

Entrevista ao jornalista Schneider Carpeggiani (publicada no Jornal do Commércio de 14/08/08)

Com edição independente, o poeta e jornalista André de Sena lança amanhã, às 18h30, seu segundo livro, Miratio, no bar Casa da Moeda. O primeiro foi Bosques da Moira (2005), que deu origem ao seu blog www.bosquesdamoira.blogspot.com. Em Miratio, André lança mão da clássica forma do soneto, muitas vezes de maneira irônica. É o caso de versos como “Dos cínicos, a sátira desfaz / o sorriso de prata das alturas / e, tocando o bordão das coisas más, / o astro sorri de nossas desventuras”. O trabalho do autor espelha ainda sua fixação pelos meandros da poesia ultra-romântica: “Às vezes trago um frio de corrimões / na alma! um vento invernal que vem e passa / e me faz ser – espectro das monções – / canção gelada que espelhos embaça. // No cristal e no vidro há todo um risco, / uma sereia fria que invita a mente / a estados de alma lânguidos, dormentes, / um perder-se ante o olhar do basilisco. // Em frente ao espelho, eu tenho me despido / de reflexo e me vejo feito vidro”. André lembra que a forma é a “espinha dorsal da literatura”:

Comente um pouco como o título do seu livro serve para reunir os poemas aqui publicados, o que é Miratio?

Etimologicamente, Miratio (ad-miratio) vem do latim e expressa o maravilhamento por alguma coisa estranha ou inaudita, mas também uma espécie de re-significação dos fenômenos do dia-a-dia. Parafraseando o poeta alemão Novalis, algo como dar ao comum um sentido elevado, ao costumeiro um aspecto misterioso, ao conhecido a dignidade do desconhecido, e ao finito o brilho das coisas infinitas.

O seu livro lança mão de sonetos, o quanto a forma é importante para a sua poesia? Como você utiliza o soneto?

A forma é a espinha dorsal da literatura. Da mesma maneira como os atletas olímpicos estão a perseguir a concretização “corporal” de seus ideais de superação física, o poeta também está ligado à sua busca, talvez mais contemplativa do que explicativa. Todo escritor anseia pela frase ou verso assassino, aquele que o “mata”, quando a obra – a carnação dessa sua busca – passa a usufruir vida própria e dele prescinde. Eu costumo escrever poemas líricos brancos (versos livres), aos quais denomino “bárbaros”, mas tenho grande amor pelas formas fixas, como os sonetos, rondós, baladas etc. Em relação aos sonetos, que aparecem com algum destaque em Miratio, mantenho a estrutura tradicional mas exploro – como é natural – meu universo de referências particulares. Algumas vanguardas já nascem velhas, no momento em que negam a inesgotabilidade das formas fixas.

Como Miratio se aproxima dos seus trabalhos anteriores?

Miratio é meu segundo livro de poesias. No primeiro, Bosques da Moira (2005), busquei uma poesia puramente onírica e evanescente, que adoro. No novo livro, não abri mão desse imagismo, mas considero Miratio menos hermético.
NOS MEANDROS DA ESCRITA
(Entrevista a jornalista Juliana Barbosa)

Poderia falar um pouco sobre sua obra de estréia e suas influências?

Escolhi para a capa de meu primeiro livro a imagem de um animal híbrido, um antigo leão-grifo, para simbolizar minha escrita. Os chifres iconizavam, na Antiguidade, a chamada cornucópia, a abundância... e há, efetivamente, uma abundância de imagens oníricas. Falar em influências é difícil, pois sempre admirei os clássicos da literatura universal sem que, contudo, eles estivessem presentes em meus escritos. Mas é possível detectar traços românticos (o gótico, por exemplo; o onírico já presente em Nerval), surrealistas, imagistas e, ainda, alguns elementos macabros, talvez influenciados por E.T.A. Hoffmann, Poe, e outros autores da literatura de horror e literatura fantástica, que sempre me cativaram.

Mas em Bosques da Moira a presença maior é a do imaginário medieval e romântico...

Em Bosques da Moira eu quis cultivar o estranho em poesia, aqueles “acordes de harmonia irreal” referidos certa vez por Wilde. Optei pelo estranho e o onírico, que também são fortes características de um dos ramos do Romantismo.

Poderia aprofundar esse conceito de literatura onírica?

Sabe aquelas recordações e imagens incríveis (muitas, assustadoras) que irrompem do antes do sono, na tênue fronteira com a vigília? Trata-se de um limbo que tem conotações com aquele ápeiron de Anaximandro, elo pacífico entre ser e não-ser, tempo e não-tempo. Muitas imagens são “pegas” de lá, ou do sonho propriamente dito, ou de impressões evanescentes durante as vigílias. Às vezes, as palavras chegam sem explicação, durante o dia mesmo. Não se trata de inspiração romântica: mesmo nas tentativas mais autobiográficas, elas possuem vida própria. O autor recebe uma estocada e morre a cada frase ou verso bem escrito.

Você é religioso? Há nessa chegada súbita da palavra alguma ligação com a epifania mística?

Não creio no misticismo, embora a poesia seja quase sempre irmã da profecia.

As atividades como jornalista ajudaram na criação de um estilo literário próprio?

Meu primeiro emprego foi como jornalista cultural. É claro que a atividade diária com a escrita, tendo que cumprir prazos e demandas as mais diversas, desenvolvida ao longo de quase uma década e iniciada num momento em que eu mal havia saído da adolescência, por volta dos 20 anos, contribuiu tecnicamente para a atividade literária. O próprio ato de escrever foi automatizado. Mas ainda tenho a impressão de que a literatura transcende a escrita realista em seus momentos mágicos – o que não quer dizer que não necessite de igual polimento e trabalho. O jornalismo catapultou a dinâmica da prosa, mas acredito ter sido indiferente à poesia, lembrando que também há uma poesia da prosa.

Há quem diga que todo escritor deseja a imortalidade. Você concorda com isso?

Escrevo meus livros, gravo minhas músicas, faço meus trabalhos sem ter ambições desmesuradas e arte para mim é mais prazer que sofrimento. Fama? No século II, o imperador Marco Aurélio – a quem acho por vezes excessivamente idealista, mas, em muita coisa, irretocável – já lembrava, compondo toda uma teoria em relação a ela: “Esta vida mortal é uma pequena coisa, vivida num cantinho da terra; e pequena também é a mais duradoura fama – dependente, como é, de uma sucessão de pequenos homens de curta duração, desconhecedores das suas próprias pessoas, e muito mais ainda de uma outra já há muito morta e enterrada. Ou é a ilusão da celebridade que te perturba? Não percas de vista a rápida investida do esquecimento e os abismos de eternidade que nos esperam e nos precedem; repara como são ocos os ecos do aplauso, como são inconstantes e sem discernimento os juízos dos pretensos admiradores, e que insignificante é a arena da fama humana. Porque a terra inteira é apenas um ponto, e a nossa própria morada, um minúsculo canto nela; e quantos lá há que te vão louvar, e que tipo de homens são eles? Aproveita o dia de hoje o melhor possível. Aqueles que, em vez disso, almejam os aplausos de amanhã não se lembram de que as futuras gerações não serão de modo nenhum diferentes das de hoje, que agora tanto põem à prova a tua paciência, e não menos mortais. De qualquer maneira, importa-te muito a maneira como as línguas da posteridade falem, ou que opiniões sobre ti tenham?”.

E como analisa a recepção dos leitores em relação à sua poesia?

O público que não é acostumado a ler poesia, ainda mais a poesia de feitio imagista, geralmente estranha meus poemas. Mas tenho sempre em mente uma frase de Herder: “Dos teus leitores, uma centena não te entenderá, uma centena há-de bocejar, uma centena desprezar-te-á, uma centena blasfemará, uma centena preferirá os atrativos da serpente do hábito e ficará exatamente como é... Mas repara que talvez possa sobrar ainda uma centena em que as tuas palavras dêem frutos”.
O BOSQUE, A MOIRA E A POESIA*

(Texto do ensaista, crítico literário e professor universitário José Mário Rodrigues, publicada no jornal O Norte no mês de setembro de 2002 e, posteriormente, republicada no livro “Os abismos do ser”, de 2009)

André de Sena pontifica como um dos jovens mais talentosos da moderna cena cultural da nossa velha Paraíba. Leitor voraz da tradição e da modernidade, do ontem e do agora, pelo seu múltiplo horizonte de expectativas e interesses intelectuais têm destilado saberes diversos que, cruzando-se e entrecruzando-se numa polimórfica ambiência discursiva, vão do jornalismo, seu batente profissional cotidiano, à música, sendo ele integrante de uma banda de rock; do cinema à literatura, passando, como não poderia deixar de ser, pelas navegações internáuticas da irresistível e sedutora linguagem computacional.
Agora, mais recentemente, brinda-nos André de Sena com Bosques da Moira, seu livro de estréia no território da criação literária, mais precisamente a que se consubstancia nas fronteiras do poético. E o livro de André de Sena, ressalvados os inevitáveis titubeios e imperfeições próprios de quem dá os primeiros passos na difícil arte da composição poética, a qual requer, para além de uma bem trabalhada urdidura formal, a manifestação convincente de significativas experiências humanas, se me afigura sinalizador de uma promissora vocação, muito distante de certos primarismos lingüísticos que insistem, ingênua e equivocadamente, em se autodenominarem poesia.
É que, sendo hegemonicamente onipresente, a poesia tanto emerge como uma percepção rigorosamente fundante e original das coisas, seres e fenômenos, como exige, de quem a ela se dedica, a consolidação da sua nervura essencial numa forma que, bem ordenada, se configure numa estrutura lingüística capaz de gerar uma multiplicidade de sentidos.
Quando esse conúbio forma versus fundo não se estabelece de uma maneira minimamente satisfatória, a literariedade se debilita, e o texto fracassa esteticamente, tornando-se tudo, do confessionalismo piegas à catarse emocional, menos poesia, menos poema, consoante as reflexões mais seguras oriundas de teóricos e estudiosos envolvidos com esse importante departamento do plural território da genealogia literária.
Bosques da Moira persegue esse consórcio e, em alguns instantes, a busca logra o êxito de acumpliciar, na carnadura concreta da linguagem, o ritmo, a imagem e idéia, de modo a fazer com que, transfigurada pela alquimia transformadora da linguagem, a realidade seja percebida de um modo mais vertical e iluminador.
No primeiro poema do livro, “Demônios”, por exemplo, toda a soturna atmosfera poemática é marcada por um recorrente culto de contrastes, o que empresta ao poema uma tonalidade eminentemente conflituosa, dicotômica, barroca, inviabilizando-se, desse modo, nos subterrâneos simbólicos textuais, qualquer possibilidade mais pacífica de apreensão do real.
Dia, noite, ar, prisão, sombras, luz, eis alguns sememas que confirmam a coreografia barroca do poema e, no limite, falam menos da exterioridade das paisagens que cercam o poeta, que da sua interioridade atormentada, a qual, confessionalmente, assume: “sou os bichos-demônios / sou a menina bicho”.
É que, alados e sombrios, os anjos e demônios que perseguem o poeta, e que cartografam a alucinatória e sonâmbula atmosfera que permeia parte dos seus poemas, se configuram em projeções e representações de dramas íntimos que mapeiam a poliédrica alma do inquieto eu-lírico que André de Sena mobiliza na arquitetura semântica dos seus poemas.
Movendo-se dos vetores apolíneo para o dionisíaco, a poética de André de Sena desconfia da consensual e pacífica aparência das coisas e pleiteia uma espécie de retorno às dimensões mais primevas do real; distancia-se do logos e parece querer abraçar a inefabilidade do mito, anterior à própria história e razão e, paradoxalmente, delas fundador emérito, daí a ingente busca das “regiões extremas, do recesso das coisas, do labirinto da alma, das terras de loucura e de encanto, praças de si esquecidas e em cuja ascensão, tendo a razão cativa, achamos, em novas terras, visões mais puras e a louca paz das avezinhas”.
Aqui, demitindo-se a previsibilidade das fronteiras mais rotinizadas e referenciais do mundo, a poética de André de Sena, em acendrada postura transmanente, busca a utopia da liberdade infinita e a transcendência ao cárcere asfixiante das horas. Na mágica estrada de “álamos brancos”, a da poesia com a peculiaridade da sua lógica contracultural e alucinatória, o itininerário percorrido por André de Sena quer aprender o tempo numa dimensão totalizadora, sem começo, nem meio e nem fim.
No terceiro poema do livro, “Um poeta”, emerge, em perspectiva metalingüística, a função da poesia e o papel do poeta, ser que, movido pelo “frenesi da procura”, busca remover a crosta da previsibilidade que cerca as coisas, a fim de revelá-las na plenitude da sua essencialidade. Ser de “afago e de grito e que procura o entendimento do riso mais aflito”, o poeta, cada vez mais marginalizado pela crescente reificação da sociedade, quer recuperar, para a poesia, o seu poder nomeativo do real, hoje ocupado hegemonicamente pelos mascaradores e competentes discursos da ideologia, hábil legitimadora de uma ordem social injusta, de acordo com as lúcidas ponderações de Alfredo Bosi, presentes em seu clássico livro O Ser o Tempo da Poesia.
Nos Bosques da Moira, inventados pelo exacerbado e surreal imaginário de André de Sena, desfilam, ainda os fantasmas da morte, a passagem inflexível do tempo, os abismos irresistíveis do amor com os seus mistérios e seduções, e a natureza com a vastidão incontornável dos seus elementos componenciais; natureza que se impõe menos pelo exotismo decorativo das suas colorações exteriores que por se configurar como projeção íntima das essências interiores do poeta.
Como diria Mário de Andrade, os jovens talentosos são portadores de desequilíbrios poderosos, sobretudo quando incursionam pela desbordante seara da criação poética, em cujo estuário somente a experiência, sedimentada pelo estudo paciente e pela ação rigorosa do tempo, promove a conquista da plena maturidade.
Com Ezra Pound aprendemos, e convém nunca esquecer essa luminosa lição, que “domínio de qualquer arte supõe o trabalho de uma vida inteira”. Bosques da Moira, não sendo um livro consumado, é portador dos poderosos desequilíbrios a que aludiu o criador de Macunaíma. Mas somente a má vontade de críticos que somente têm olhos para os autores consagrados e, por pura comodidade, ignoram, solenemente, a literatura do agora, é que não perceberá que, nos desvãos desse bosque, habita, com o pasmo que lhe é essencialmente peculiar, a moira da poesia, com a sua indelével cartografia de espantos e o olhar inauguralíssimo que ela faz recair sobre todos os recantos do real.
Culto, leitor voraz, André de Sena não permite que a moira que lhe habita os bosques da imaginação poética naufrague nas águas turvas do ramerrão sentimental e confessionalista em que jazem algumas produções locais, que, por absoluta carência no trato com a linguagem e por indisfarçável pobreza inerente à arquitetura composicional, podem, convém reiterar, ser tudo, menos poesia, menos poema, compreendido este como uma organização verbal capaz de gerar uma multiplicidade infinita de sentidos.
No mais, Bosques da Moira é um livro que revela talento, exibe qualidade e insere o seu autor, meritoriamente, no quadro das vocações mais promissoras da contemporaneidade lírica paraibana.
* Texto crítico de 2002 sobre a primeira versão de Bosques da Moira, publicada um ano antes em limitada tiragem de 100 exemplares (sendo que a versão final e oficial do livro só sairá três anos depois, em 2005, com 60 poemas inéditos). Esta primeira versão da obra (na ocasião, André de Sena atuava na imprensa paraibana) continha apenas 17 poemas, sendo que dentre os aludidos pelo crítico em seu texto, “Demônios”, não existe mais; “A mágica estrada de álamos brancos” aparece em uma versão antiga, diferente da que pode ser encontrada na versão oficial de Bosques da Moira (2005); e “Um poeta” também aparece numa versão antiga, modificada na versão final da obra.

LITERATURA




BOSQUES DA MOIRA (2005)

19.10.09

ALGUMA POESIA

Poemas catalogados pela Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (copyright do autor). Totalmente proibida a reprodução sem prévia autorização


As palavras

As palavras, imunes à lembrança,
flutuam na noite de coral,
inquietas hamadríades ao sabor dos ventos...
Escorregam pelos canteiros,
despem-se em arpejos vegetais,
borboleteiam a luz, antecipam as mariposas
e se deixam embalar nas ondas, turmalinas.
Na água branca, no cisne incolor,
por trás da paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge apenas a esfíngica morte
no grito de animal inventado,
fabular e inominável.
Mas são delas os lampiões apagados.

Enquanto eu lia um conto de ar

Enquanto eu lia um conto de ar,
tecias auroras, desertos em cascatas
e entretias alísios com trenos tão suaves
que nem os ventos se lembravam.
Eram segredos nossos dias,
lanternas de cantos noturnos,
graves e estranhos...
O céu à terra não se ligava
e o vento, seu louco menino de ar,
ainda nomos não ensaiava.
Fátua espada, faca temperada na corrente,
divino farol, que ao mar me lançava,
amando de assassinas ondas forjar.

Do silêncio

O silêncio percorre colunas e portais
criança nua, desdentada
sombra sem passo que a cada passo
aclara com arte um enigma.
O silêncio passou pela janela, clarim,
anunciando lutas em breve,
grandes batalhas contra jardins.
O silêncio passa novamente,
não me contenho, grito.
- Para dentro da árvore,
vamos para dentro da árvore!
E fui com o silêncio para dentro da árvore.

Paradoxo

Amo e desprezo a vida ao mesmo tempo
e, como o nauta, irmão da tempestade,
abjuro as ondas, escarneço o vento,
irmanado à ciclópica vontade.

Desconheço o futuro e meu passado
é onda, brisa, fumo, sonho altivo.
Mas houve tanto instante ensolarado
e tanta formosura que ainda vivo!

E nesta dupla sorte eu venço os dias;
ora aspiro à luz, ora indago a treva,
buscando unir opostas harmonias.

Em amor e desprezo a alma se inflama
e, qual aparição, ao céu se eleva
como a calçada verte o céu na lama.

Da vida dos pássaros

Quando o tetraédrico sol
(cuja majestade de pão e peixe,
disseminada até pela escuridão,
voa com os corvos)
é ocultado por nuvens de pássaros
e a tarde desbota, imagem antiga,
doce é caminhar na relva úmida
pisando serpentes com pés descalços.
Ciosos de chuva,
calendários entortam árvores,
alagados e ervaçais,
numa atmosfera que a água solidifica.
Saltam visões das crateras abertas;
arcanjos em carvalhos, florais cornamusas,
arbóreos tormentos, balés de teias negras.
Sobre a gruta anil está o unicórnio
e, mais acima, a gralha que lhe roubará os olhos.

De Safos nos abismos

Lançam-se os dias
como Safos nos abismos.
É bom morrer com a noite,
a noite total, que perfumará sua chaga.
Morremos noites seguidas e não só
empalados, enterrados vivos, crucificados.
Todas as tardes,
quando a corda do oceano
narra sua epopéia antiga
e as abelhas expectoram melíferos ninhos,
esfaqueio a alma das constelações
e morro como a cítara de um dia.

Ego vitro

Falo-te de fantasmas e visões,
dos queixumes do vento nas vidraças,
do estranho frio e as vítreas sensações
dessas vozes que vagam, sempre lassas.

Às vezes trago um frio de corrimões
na alma! um vento invernal que vem e passa
e me faz ser – espectro das monções –
canção gelada que espelhos embaça.

No cristal e no vidro há todo um risco,
uma sereia fria que invita a mente
a estados de alma lânguidos, dormentes,

um perder-se ante o olhar do basilisco.
Em frente ao espelho, eu tenho me despido
de reflexo e me vejo feito vidro.

Invernal

Suavemente, bem suavemente,
açoita o vento as rúbidas paisagens;
cola-se o rio, o fruto está doente
e a andorinha enrijece nas ramagens.

O inverno enfim chegou, fosforescente,
gelando as flores, tumbas e visagens,
gelando as flores, vítreas e dormentes,
cristal em pó, reluz como miragens.

Da paisagem monótona o aprumo
me fez rejubilar, ditou meu rumo
entre os brancos jardins e alvas latadas.

Não se vê onde acaba a neve e surge
a palidez marmórea que refulge
a minha sombra negra nas calçadas.

Disse a flor

Disse a flor,
pendendo o abismo:
“Destrói!”, canta o vento.
“Refulge!”, canta a aurora.
“Fenece!”, bradam os campos.
“Explica!”, diz o homem.
E o pesadelo dos homens
é a alegria dos animais.



ADQUIRA OS LIVROS/CDS DE ANDRÉ DE SENA PELO MAIL
bosquesdamoira@yahoo.com.br

4.10.09

PROJETO MUSICAL BOSQUES DA MOIRA














CD 1 - TERZA RIMA (2005)

(1. Lobo, aos olhos do ocaso)
(2. Sotiripse ed ogof)
(3. O céu, o universo, a chuva)
(4. Causa mortis)
(5. O Uraeus - instr.)
(6. Com a cabeça decepada)

₢copyright by André de Sena (direitos reservados)
André de Sena (guitarras, vocal)
Cleidson Araújo (bateria)
Marcos Alexandre (baixo)
Paulo Pellee (teclados)















CD 2 - PRETEXTO DE LUAR (Música para violão)(2007)

(1. Pretexto de Luar n°1)
(2. Pretexto de Luar n°2)
(3. Pretexto de Luar n°3)
(4. Pretexto de Luar n°4)
(5. Pretexto de Luar n°5)
(6. Pretexto de Luar n°6)

₢copyright by André de Sena (direitos reservados)
André de Sena (violão)
Paulo Pellee (teclados)

10.5.09

LITERATURA VIVA DO RECIFE (VITRINE)

De Prosopopéia, poema épico do ciclo luso-brasileiro, escrito em 1601 em terras pernambucanas por Bento Teixeira e considerada a primeira obra literária do Brasil, até Latinomérica, grande epopéia em língua portuguesa do século XXI, de autoria do poeta pernambucano Marcus Accioly, que continua em plena atividade autoral, muita tradição literária e obra imortal vem sendo gerada na ensolarada terra de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Osman Lins, Carlos Pena Filho e tantos outros grandes autores. Esta Vitrine da Literatura viva do Recife (e de Pernambuco) pretende sugerir – sem constituir uma perquirição crítica verticalizada (daí o termo “vitrine”) – ao público em geral a leitura de obras interessantes e de comprovada qualidade literária publicadas recentemente em Recife, dando-se destaque aos autores locais, sejam veteranos ou talentos promissores.


A seleção poética Todas as coisas têm língua (500 páginas, ed. Cepe-PE), do consagrado poeta Ângelo Monteiro (nascido em Penedo-AL e radicado em Recife desde 1971), reúne poesias de vários livros antigos do autor, alguns esgotados, como sua estréia Proclamação do verde (cuja primeira edição saiu em 1969 pela Editora da UFPE-PE), Habitação da ausência, Os olhos da vigília, As armadilhas da luz, O ignorado e outros. Trata-se de uma antologia cujos poemas foram escolhidos pelo próprio autor, densa em imagens, duma dicção que poderia descender da imagética poético-filosófica de Nietzsche e dos metaphysical poets ingleses, tendendo por vezes ao melhor hermetismo. Entre poemas líricos de grande beleza, vê-se a confissão de amor à poesia: “[...] Poucos chegam porém / às vossas câmaras. / Poucos, bem poucos / Seu ardor mantêm: / O ardor que só aos duros / Diamantes convém” (“Os assinalados”); elogio que não esconde sua utilidade metafísica: “Prender a onda na praia / antes que a onda caia / é a faina da poesia” (“Ondulação”). Monteiro redefine a epígrafe heraclitiana: “Tudo que passa é uma sombra / Do que além vive [...]” (“Tudo é promessa”) e canta o tempo ora com nostalgia, ora com espanto: “Na medida áurea do sol / que enclausura as nossas horas / nem todos acham seu dia. // Quantos sob o sol deliram / e outros ardem em suas chamas / mas jamais conseguem vê-lo. // Enquanto o destino fia / e desfia o seu novelo” (“Um lugar ao sol”). Leitura obrigatória.



Daguerreótipos (222 págs., ed. Escrituras) é o mais recente livro do príncipe da poesia do Recife, Marcus Accioly, autor de obras-primas como Sísifo, Narciso, Guriatã, a epopéia Latinomérica, dentre uma infinidade de outras obras que fazem dele uma das maiores vozes poéticas em língua portuguesa de todos os tempos. O livro traz 164 sonetos dedicados a personalidades das mais diversas áreas, englobando literatura, música, cinema, artes plásticas, ciência e outras mais. O último soneto, o de nº 164, é um metapoema dedicado à própria forma do soneto: “De da Lentini passas a Pier / della Vigna, caminhas com Petrarca / que molha a pena ao pranto e deixa a marca / de Laura no teu rosto, ela, a mulher // amada pelo tempo em tua barca / – gôndola de Veneza – sem sequer / tocar à luz da água com a alparca / nem desfolhar um bem ou malmequer. // Se é duplo teu quarteto e teu terceto / e tens catorze versos, tu, soneto, / em séculos depois, prossegues flor // entregue à mão da dama do futuro. / Mas não te quero assim, em ti procuro / o inferno no poeta e o mal na dor”. A obra de Accioly é fortemente intertextual e inclusiva e tal se evidencia mais do que nunca nos sonetos de Daguerreótipos. Não podemos considerar o livro como “obra de vida inteira”, a exemplo do que se passa em Latinomérica, mas “obra de entrevida”, os sonetos sendo gerados ao longo da feitura de outros trabalhos, mas unidos numa trama evidentemente conceitual. Bom exemplo de intertextualidade, no poema dedicado à Florbela Espanca: “Abênção noite! Abênção claridade! / Abenção livro de Sóror Saudade! / Tu, lua, cospe, de Florbela Espanca, / sua saliva branca, branca, branca // Sobre a Charneca em flor desta cidade, / ou sobre o mar que escarra espuma. É tarde. / Cai uma estrela: a mão de Deus arranca / sua flor luminosa, branca, branca. // Tento cantar dois versos de Florbela: / ‘Dona morte dos dedos de veludo, / Fecha-me os olhos que já viram tudo!’ // Abro à porta do céu minha janela / e os ventos ventam vozes intranqüilas: / ‘Florbela já tomou todas as pílulas’”. Outra intenção do livro é a de aproximar-se não da biografia, mas da fotografia (daí a escolha do título), como corroboram as várias epígrafes que tratam do tema (prato cheio para uma leitura crítica intersemiótica). Susan Sontag, por exemplo, afirma: “Quando temos medo, atiramos, mas quando ficamos nostálgicos, tiramos fotos”. Accioly pretende criar instantâneos de seus heróis e fantasmas (muitas vezes em tom elegíaco). A chave de leitura se encontra no primeiro soneto do livro, que trata justamente da arte de eternizar uma imagem em luz e sombra: “Dentro do teu caixão – câmara escura – / só quero revelar a dor, soneto: / negativo onde o mal se desfigura, / retrato colorido em branco-e-preto. // Sombra da imagem viva que remeto / para – dentro da folha ou placa dura / de prata e cobre em banho de iodeto – / ser lida em tua hermética estrutura. // Quero em catorze filmes dar à luz / ao mal que leva o bem até a cruz, / gritando, de loucura e de tristeza, // da máscara-de-ferro do teu verso / que – afivelada às faces do universo – revela e esconde o rosto da beleza”. Há muitos outros sonetos que gostaríamos de divulgar aqui, a exemplo do que é dedicado a Manuel Bandeira: "Fazias versos, não como quem vive, /porém – 'como quem morre' – pois descias / a tua escada ao último declive, / ou ao último degrau, de onde caías, // Manuel Bandeira, a tua queda livre / - tossindo de cantar quando tossias - / porque teu peito aberto, em seu proclive / pulmonar, era a noite dos teus dias. // Fazias versos, sim - 'como quem chora' - / a alegria perdida na tristeza / e a beleza que foge a cada hora. // Mas, fosse a dor o mal que não se trata, / tu, poeta, em legítima defesa, / farias versos, sim, como quem mata". Leitura obrigatória, como todos os livros do virtuose Accioly.



A Ateliê Editorial está lançando uma nova edição do estudo Do modernismo à bossa nova, de um dos maiores intelectuais recifenses, Jomard Muniz de Britto, cineasta, poeta e criador dos “atentados poéticos” (performances literárias desconstrucionistas) e autor de várias outras obras. O livro, originalmente lançado em 1966 pela editora Civilização Brasileira, é um marco dentro dos estudos intersemióticos brasileiros e um dos pioneiros a discutir as relações entre música e literatura, no caso, como o título indica, os imbricamentos entre a bossa nova e a literatura de vanguarda brasileiras. O livro tem, entre outros, apresentação do cineasta Glauber Rocha, a quem o próprio Jomard define (na “Autoapresentação”) como responsável, “antes da régua e compasso dos tropicalistas”, por “libertar minha cabeça dos academicismos”. Na “Apresentação” glauberiana, o diretor de Deus e o Diabo na terra do sol afirma: “[...] Outra coisa que me fascina em Jomard é sua ‘desaristocratização’. É muito difícil, ainda hoje, encontrar tipos diplomados em filosofia & etc. que não sejam portadores de preconceitos e arrogâncias contra a chamada plebe ignara. Jomard, pelo contrário, é homem despido de princípios sagrados. Sua erudição é diluída no seu grande interesse pela vida, sobretudo pela vida que o cerca, a que vive nos inesperados caminhos de hoje. É assim que o conhecedor profundo de poesia não se inibe diante da bossa e tem o relaxamento de escrever um ensaio que fala, sem pudores, do modernismo e da bossa nova. Isto, há dez anos atrás, causava escândalos”. Lembremos que o prefácio de Glauber foi escrito em 1966, época em que Jomard já realizava suas “aprontações” culturais (posteriormente batizadas como “atentados poéticos”), no cinema de vanguarda, na poesia desconstrucionista, na militância cultural como “agitado cultural”. O método das contradições é o modo como Jomard aborda o modernismo brasileiro e seus desdobramentos. Sua reflexão parte das vanguardas europeias e da Semana de 1922 para chegar à bossa nova e à tropicália. Nesse trajeto, são analisadas as relações da literatura, da música e da educação com os problemas culturais, sociais e políticos do país. O autor argumenta que as contradições do modernismo brasileiro são as de nosso comportamento lírico – ora intimista e individual, ora crítico e social. De acordo com Celso Favaretto, que assina as orelhas, “o livro de Jomard, publicado inicialmente em 1966, inscreve de modo exemplar os signos fortes da renovação da vida que deveriam presidir a reinvenção das ações políticas, culturais, artísticas e educacionais, contribuindo assim de modo singular para a reorientação em curso do entendimento do ‘homem brasileiro’, da ‘cultura nacional’, da ‘realidade brasileira’. Marca específica é exatamente a proposição do ‘método das contradições’ e da ‘reflexão emotiva’, em que se percebem repercussões das referências teórico-analíticas constantes na época – fenomenológicas, existenciais e marxistas. Também é preciso ressaltar que o interesse deste livro prende-se ao fato de que é dos primeiros, senão o primeiro, em que a música popular, ao lado da literatura, é constituinte de nossa educação sentimental e política – fato que só mais tarde foi colocado em relevo nos estudos sobre as formações culturais brasileiras”.


Luís Fernando Monteiro, o maior romancista recifense em atividade, além de poeta, cineasta e crítico, nos brinda agora com o poema longo em versos brancos Vi uma foto de Anna Akhmátova (85 págs., Fundação de Cultura da Cidade do Recife). As orelhas são assinadas pelo artista plástico Francisco Brennand, que ressalta as qualidades literárias do novo livro e a importância da obra completa de Monteiro, autor de livros premiados como O rei póstumo (teatro), Aspades, ets etc (romance), A cabeça no fundo do entulho (romance), T.E. Lawrence: morte num ano de sombra (ensaio), O grau Graumann (romance) e vários outros. Em sua nova obra, a partir do leitmotiv da imagem de uma foto da poeta russa Anna Akhmátova (a acmeísta), compõe estrofes onde se impõe uma consciência lírica abraçada à crítica cultural, social e artística, mas também uma viagem imaginária cronotópica na melhor dicção contemporânea, associativa e com um pé no cinema. Leiamos um trecho: “Vi a fotografia da poeta morta, / isso eu vi de perto / porque aproximei dos olhos / os pontos da impressão granulada / a me olhar do outro lado do Letes. / Vi tanta coisa na vida / e nunca vi um olhar como o dela. / Imagino que a minha malícia pudesse subir / ao longo daquelas pernas, das coxas veladas / por anáguas leves até a rosa do sexo / aberta sobre o jardim da cama / de pequenas margaridas e jovens narcisos / debruçados sobre o lago de mistério / das virgens entregues a homens / não muito limpos no dia do casamento / arranjado nas aldeias de febre. // Estão tão longe de tudo que ficam próximas / do esquecimento, do perdão para as vilas, / os cantões aéreos, as povoações da poeira / de carros e trens passando sem parar / nas estações aposentadas pelas estradas / de asfalto contornando o cemitério, / a igreja em ruínas, os velhos endereços / de empregos oferecidos por pequenos capitalistas / do mercado de miudezas, bebidas, sapatos e sorvetes / feitos de essência morta / – o primeiro gelado, a glasnost na garganta quente –, / acho que isso foi há muito tempo numa outra vida / [se existe mais de uma e somos mesmo obrigados a vivê-las ] / debaixo do tacão do Deus abaixo do Secretário, / o aldeão da morte de todas as aldeias da Santa / Mãe Rússia sem leite, sem cerveja, sem pão, / sem lentilha, sem carne e sem peixe dos rios / desaparecidos sob a rede de hidrelétricas / da Mongólia interior até à Sibéria [...]”. A poesia monteiriana busca sua essência em situações e marcas anti-líricas, prosaicas e as assume enquanto tais, sem véus ou transcendências metafísicas. O eu-lírico atesta ainda as ligações entre a Rússia de outrora e o Brasil: “Os jovens sérios têm aquela expressão grave / do médico Jorge de Lima, / que não sabia cobrar consulta / dos pobres acendedores de lampiões / da Maceió sem drogas do começo de 1900. / Augusto, Jorge, Murilo, Emílio, Abgar, / os poetas jovens que eles foram / não nos censuram por gentileza; / são Gregórios de Matos educados / que evitam tocar na ferida aberta, / sujar o tapete da estepe / onde caíram os soldados de chumbo / de todo um exército de combatentes. / Não éramos (nem somos) dignos deles. // Quem somos nós? // Talvez a Rússia longínqua possa explicar / as semelhanças dos loucos e dos santos / do Nordeste delirante igual ao pampa cheio / dos Romualdos de São Simões Lopes neto / de gaúchos parecidos com os avós de Taras / Bulba e Rasputin, o monge de ferro / que amava a czarina da louça de Sèvres [...].// Nossa terra tem palmeiras e coqueiros / de aquarela que dão a marmelada já enlatada / para consumo imediato da preguiça ancestral / da nossa boa música de negros, / escravos do moreno Mário, / do míope Mário, modernista do modernismo / mais que moderno. / No final dos anos 30, Tarsila do Amaral viajou / para Moscou, com a maquilagem art-nouveau, / e voltou com a arte antropofágica do Abaporu [...]”. Obra personalíssima como os outros livros de Monteiro.


A proposta estética de Linguaraz (22 págs., Lei de Incentivo à Cultura do Recife), áudio-livro do poeta pernambucano Pedro Américo, está contida em seu interessante prefácio (“Linguaraz se apresenta”): “Não sendo músico, quis sempre fazer um trabalho que casasse livro e disco em que os meus poemas tivessem tratamento de composição musical, com direito a arranjos para percussão, guitarra elétrica, apitos de arremedo, tromboca, berimbau et caterva. Jamais poderia ser um arranjo bem comportado com repertório para audiência de salão burguês, acompanhado a valsinhas de piano ou violão que lembram jovens adolescentes declamando puxando a saia para um lado e para o outro [...]. Linguaraz proclama-se um intérprete e defensor de linguagens barbarescas: língua-ruda, rude, língua viva, sem bravata, pois se ‘a gramática é o idiota do idioma’ (wilson Araújo de Sousa – WAS), a bravata é o idioma do idiota”. Linguaraz é poesia confeccionada para ser declamada, diferente de letra de música. Junto ao livrinho, ricamente ilustrado pelos desenhos de Victor Zalma, vem um Cd gravado pelo selo musical recifense Candeeiro Records (estúdio Musak), quando o poeta Pedro Américo interpreta suas obras ao som das “paisagens musicais” elaboradas por Silvério Pessoa, DJ Dolores, Maciel Melo e outros instrumentistas. Apesar da produção esmerada do livro e do Cd, e dos flertes com a poesia concreta, a sua raíz é marginal, contestatória, irônica e parodística em relação ao cânone e a tradição ocidental – características da obra poética anterior de Pedro Américo. Todavia está a anos-luz de distância dos primarismos de boa parte da chamada produção marginal, ao demonstrar esmero e acuidade profissionais no trato com a mesma língua que se quer vilipendiada (daí a ironia); leia-se, por exemplo, algumas estrofes do poema “Mãe de Pantanha”: “boa noite gente boa / receba meus cumprimentos / aqui vêm meus experimentos / na poesia de loa / não sou eu nenhum à-toa / longe de mim tal façanha / eu tenho a língua tamanha / que nenhum poeta mede / cantor nenhum arremeda / língua de mãe de pantanha // ando no oco do mundo / a ver se nele me encaixo / rio acima rio abaixo / do mais raso até o mais fundo / eu digo e não me confundo / vi a medonha vereda / ardendo na labareda / era o inferno dantesco / um episódio grotesco / digno de Sales Arêda [...]”. O mesmo acento pró-grotesco se evidencia em “Picardia”: “chupo manga trepado na mangueira / cafungando no pó da poesia / violando o bom tom da burguesia / bailo jogo mortal da capoeira // abaixo o burocrata e o reunismo / por não te desejar um bibelô / estes lírio vos dou de camelô / e com isso me poupa o feminismo”; e no “Canto pedregoso em terça rima”: “nasci pedro, assim me encaixo / pedregulho entre pedreiras / rolando penhasco abaixo // cresci pedra por ladeiras / açudes, roças e rios / fui trempe para fogueiras // sofri febres, calafrios / senti no couro chibatas / meus ais viraram assobios // sonhei sonhos em cascatas / neles cacei capivaras / vivi com nefelibatas // habitando nuvens raras / caí que nem bedengó / amassando algumas caras // mas hoje sou pedra-mó”. De fato, a releitura dos poemas musicados nas faixas do cd são uma atração à parte, com Pedro Américo dando destaque à polissemia melopéica de seus artefatos líricos.



Wellington de Melo é uma das maiores vozes da nova geração da literatura recifense. Deixemos de lado o seu trabalho como fomentador cultural junto ao grupo Urros Masculinos, que nos foge no momento, e foquemos unicamente a escrita contemporânea de seu segundo livro de poesias, Desvirtual provisório (84 págs., Canal 6 editora), que tem nos embates, hiatos e intersecções entre o humano e a máquina seu tema principal desenvolvido já com maestria. Ana Beatriz Durant, que assina as orelhas da obra, fala sobre sua divisão temática: “O livro é dividido em cinco partes, sem é claro, correr o risco da segmentação e distorção entre elas, a saber: A proto-máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na primeira parte, o nascer dos versos, diante dessa realidade vã, é cantado como pura necessidade, como sangue que brota da desordem. Na segunda, o poeta expõe a engrenagem diante da existência humana. Na anti-Máquina, há uma inquietação diante de tanta inexpressividade do homem. Na penúltima parte, é possível vislumbrar um indivíduo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora lampeja-se apenas homem, frágil. Em O pó, o derradeiro destino, o retrato de um ser que é apenas superfície, sem espessura, coberto por uma camada cinza que mata, penetrando aos poucos, apenas na inalação da maioria desavisada”. Apesar de o tema não ser novo, Melo consegue – ainda “cantando”, na melhor tradição poética ocidental, como atesta o prefácio – atingir momentos líricos de grande densidade, novamente nas palavras de Durant, “não geográficos, mas históricos, de homem contemporâneo, esgotado, estéril, que absorve maquinalmente o seu tempo sem as amarras que lhe são impostas pela Máquina”. Tal esgotamento se traduz, às vezes, numa revisita ao treno e à lamentação de origem profética, bíblica – poder-se-ia mesmo dizer, mutatis mutandis, uma espécie de Livro de Jó da era internáutica, entrevista como algo próxima de um semelhante Deus velado e fugitivo, ou então, paradoxalmente, onipresente e castrador como o Grande Irmão orwelliano, uma cifra malthusiana irmã do topos niilista-poético do vazio (reparem na utilização dos símbulos gráficos da linguagem binária computacional no interior dos poemas): “Eu acordo & j@ não me reconheço na face embaçada do / espelho. Eu, parafern@lia de números que se repetem, que dão / conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora. / Eu, repetidas vezes ninguém, sufocado entre telas que nada me / dizem sobre mim. Eu, uma extensão de um nada que se afasta cada / vez mais da terra da qual roubo meu nome: // homem. // Eu, homem, só me reconheço no Caos que me presenteia o / Verbo. Eu, translúcida sombra de mim, atravesso os dias como uma / lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na palavra que alguém me / empresta. Eu, avesso de uma possibilidade, eu, mastigado pelo / cotidiano herético dos Anjos, finalmente descubro que pesa sobre / mim a herança de meu tempo, a única verdade que o Homem de / meu tempo entende: // a M@quina [...]”. Wellington de Melo é poeta promissor e já capaz de realizar grandes artefatos líricos, a exemplo de “Antes havia o poema”, uma releitua cyber do velho (e sempre atual) topos da Idade de ouro perdida: “antes do som / das bestas de silício / antes da chama / que se verte pela beleza do s@bado / antes da asa / acesa do tempo / que derrete / o desejo // h@ uma centelha // de vida que se eleva / sobre minha face // h@ um suplício de folhas mortas // & a seiva primordial / de que se compõe o sonho // h@ um fio de sangue // que escorre pela fria navalha / da noite das eras // antes de todo o caos / depois de toda a paz / em mim // havia o poema”. O gosto de cilício, parafraseando o posfácio assinado por outro poeta recifense, Artur Rogério, “ainda tá na boca e é, inesperadamente, dos mais saborosos”.


Abramos um espaço na vitrine de livros para divulgar a revista Eita! produzida pela Fundação de Cultura do Recife, com vários artigos interessantes sobre literatura, dança, cinema e música, além de projeto gráfico excelente. Conta ainda com um miniconto de Marcelino Freire, um artigo sobre best-sellers de Fernando Monteiro, e várias discussões acerca do design contemporâneo. A revista tem tiragem de 1000 exemplares e já pode ser considerada, ao lado da Continente Multicultural e do suplemento literário Pernambuco, como os melhores veículos de discussão sobre o universo artístico do Recife.


Abrimos um parêntese para a Eita!, ampliemo-lo um pouco mais para divulgar um outro projeto sensacional surgido no Recife, só que, desta vez, vindo do mais puro underground. Trata-se da revista Xorume - Quadrinhos sujos e ordinários, que alcança agora seu segundo número. A revista contém trabalhos autorais da nova geração de quadrinhistas do Recife, a exemplo de Adriano dos Anjos, Bruno Alves, David!, Jonatan Santos, Liz França e Rafael Anderson, que desenvolvem trabalhos nas mais diversas áreas dos cartuns. Destaque para o traço certeiro de Adriano dos Anjos, por sinal, vocalista de uma das melhores bandas da cena underground da cidade, a Campo Minado.

21.7.08

Ars longa vita brevis

9.12.06

Ars longa vita brevis

Ars longa vita brevis

Ars longa vita brevis

Ars longa vita brevis

O AUTOR








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