BOSQUES DA MOIRA - POESIA FANTÁSTICA (Por Ana Paula Pessoa, publicada no jornal Correio da Paraíba, em 18/02/06)
Escritor e músico recifense, nascido em 26 de novembro de 1975, André de Sena Wanderley desde cedo iniciou-se no mundo da criação e da contemplação artísticas, obtendo o grau de Mestre em Literatura aos 26 anos de idade, no ano de 2002. Paralelamente ao seu trabalho diário como cronista cultural em veículos jornalísticos, sua poesia, que oscila entre o fantástico, o aleatório e o macabro, vem sendo publicada em revistas, jornais literários e em edições de tiragens limitadas feitas para serem distribuídas entre os amigos, mas muitos autores profissionais já se pronunciaram sobre ela. Constituídos, em geral, de versos curtos e brancos, os poemetos senianos vivem em uma atmosfera fantástica e são chamados pelo autor de “bárbaros” ou “filhotes de dragão”. Um escritor acadêmico diria que não foram feitos para o bronze, mas em minha opinião eles se bastam em termos de estranheza e liberdade expressiva, bárbara mesmo.
O primeiro livro de André de Sena, Bosques da Moira, foi lançado em uma tiragem limitada de 200 exemplares distribuídos entre os amigos, em 2003. Depois foi relançado em uma edição oficial, de grande tiragem, revista e ampliada, com 60 “poemas bárbaros”, pelo selo editorial do autor, Draco Publicações, em novembro de 2005.
De acordo com o poeta Políbio Alves (Personalidade Cultural da União Brasileira dos Escritores e Autore dell'Ano de 1999 pelo IBE - International Board Examiners), em um artigo de jornal publicado com o nome “O Bosque, a Moira e a Poesia”, “poucos textos poéticos têm o encanto, a magia e a densidade dos poemas senianos, que conjugam a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem. Encontro neles um convívio prazeroso, numa outra dimensão que não a da vida cotidiana”. No mesmo texto, Políbio chama atenção para os leitores não acostumados com os usos da poesia de cunho fantástico: “aos leitores por águas nunca dantes navegadas, cuidado com a travessia, muito cuidado. Chegar ao coração do poema equivale a debruçar-se além da escritura poética e deixar-se impregnar totalmente por ela. Os seus poemas são como uma fronteira entre o profano e o divino, o subnatural e o tangível”.
Outro crítico que se pronunciou acerca do trabalho de André de Sena foi o escritor português Antônio Soares, em outra resenha de jornal. O mesmo declarou: “em seus poemas pode-se encontrar o calor antigo da poesia, que só poderá ser detido nas estruturas metafóricas de um imagismo peculiar, portanto inovado”. Soares explicitou o desconstrutivismo flagrante nos versos senianos, manifesto no ato de refazer termos e expressões de sentido oximórico e, também, nas imagens cromáticas, vivas, repletas de elementos sinestésicos. “Nesse concentrar-se ou constante volver-se sobre si mesmas, se estruturam as forças dinâmicas, subjacentes, modeladas em sentimentos, fantasias, intuições, traços oníricos que desestruturam e quebram as barreiras da horaciana arte poética. O real dilui-se no fantástico e um avanço sinestesicamente mágico suspende tudo”.
Mais um poeta veterano a escrever uma resenha sobre a carpintaria poética de André de Sena foi Sérgio de Castro Pinto. Em um texto publicado com o título “Poesia pra ser lembrada”, disse que “sua poesia contraria o poema metalingüístico, se considerarmos como tal aquele que veicula apenas a preocupação do poeta com a linguagem. E isso porque, se as vanguardas cultivaram seu discurso metalingüístico subordinadas à razão, o de André de Sena não se mostra regido pelo sol a pino do meio-dia. O que não o impede de convocar palavras luminosas, solares, com o intuito de lançar luz sobre um universo impregnado de sombras. Tudo se opera como se o sol de suas palavras perdesse o pino e descortinasse um mundo surreal em plena luz do dia”. No mesmo texto, Castro Pinto evocou o padrão das antigas parlendas presente em muitos de seus poemetos, que são comparados às quadras de feitiços medievais e à linguagem hipnótica das crianças. Outros críticos filiaram sua poesia versolibrista como uma encruzilhada entre o simbolismo e o surrealismo que geraria, em muitas ocasiões, uma linguagem hermética que tenderia ao infinito e ao aleatório.
Isso foi corroborado em um texto publicado na Revista Encontro, do Gabinete Português de Leitura, escrito pela Doutora em Literatura e também poeta Lucila Nogueira, que ressalta os aspectos góticos da carpintaria seniana. Segundo ela, “André de Sena realiza uma evolução do poema de forma fixa à dicção contemporânea; ao mesmo tempo, a atmosfera gótica que nos invade à leitura de seus versos demonstra uma sintonia com elementos mágicos da natureza a que não foram insensíveis historicamente os grandes escritores, o que transforma a sua oração do segredo noturno em feitiço sobrenatural”. E, concluindo, pergunta-se a autora: “Diante de uma poesia como essa o que se pode fazer a não ser resgatar, com André de Sena, o caráter da poesia como talismã mágico do início da espécie humana?”.
Em suma, estando mais afeita ao sentimento poético do que às exegeses téorico-literárias, comparo os poemas senianos com a estrutura de sonho de um arabesco maravilhoso que sua obra futura com certeza poderá edificar. Quando recebo um de seus pequenos livrinhos coloridos, na verdade, capítulos divulgados antes da impressão de uma nova obra, descubro que ele é um desses autores que, ao invés de contemplar a superfície do Ideal, preferem mirar o que há de mais sombrio na própria invenção. Continuo lendo seus “filhotes de dragão” com a mesma sensação “de quem abre um baú cheio de coisas misteriosas”, como falou outro leitor de seus poemas. Em seus versos livres, às vezes me engasgo com estranhas belezas em estado puro.
OS PÂNTANOS DA CULTURA
(Crítica publicada no Jornal da Paraíba pelo poeta Políbio Alves)
Poucos textos poéticos, aqui da província do Varadouro e de outras alhures têm a magia, o encanto e a densidade destes poemas, Bosques da Moira. Sobretudo em que a capacidade de convivência entre a aura e a sedução das palavras revela um autor que conjuga a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem.
Encontro nos Bosques da Moira um convívio prazeroso, numa outra dimensão que não a da vida cotidiana. Decerto, a paixão, o impulso desatado, sensorial e orgânico em busca dos caminhos para chegar ao reino da Origem, o Mito, entendido não como fantasia irresponsável, ms como o poder instaurador do mundo e do homem. Basta lembrar que nas palavras de Paracelso – 1493-1541 (Felipe Auréolo Teofrasto Bombasto de Hohenheim, mago, alquimista, médico escritor de grandes obras filosóficas e religiosas, nascido em Eisiendeln, povoado da Suíça), Azoth é o princípio criador da natureza ou a força vital espiritualizada. Cherio é a quintessência de um corpo, seja ele animal, vegetal ou numeral; é o seu quinto princípio ou potência. Derses é o sopro oculto da Terra que ativa seu desenvolvimento. Ilech Primum é a Força Primordial ou Causal. De fato, um texto que reflui, o tempo, matéria de estranheza e memória. E ainda pode ser lido como um livro de parábolas – coisas de poeta – centrado na diversificação das mitologias que rege o universo pessoal e impessoal do homem.
Bosques da Moira é mais do que um livro de poesia: é a fronteira entre o profano e o divino, o subnatural e o tangível, através do sonho e da imaginação fértil do poeta. Em suma, é a incandescência lúcida e alucinada do proibido, a excitação do mistério, a ambigüidade do prazer e a resplandecência da vida. Sim, em confluência com os dogmas de nossas ações-reações culturais e estéticas. É isso. Os pântanos da escritura de André de Sena nos remetem a medida de sua poesia – um belo instante de comvida expressão de atmosferas, ossificado no seu itinerante veio de criatividade. Assim, de certo modo, no dizer de uma estrofe de Virgílio, “Eu tiro ouro do estrume Ênio”.
Nesta perspectiva, este texto revela uma direção talhada pela transgressão humana. Ao leitor por águas antes nunca navegadas, cuidado com a travessia, muito cuidado. Chegar ao coração do poema, creio, é você se debruçar sobre a escritura poética e deixar-se impregnar por ela. Essa impregnação se faz, por exemplo, através de leituras não analíticas, até você se sentir penetrado pela semântica do poema. Os restos são glosas, simplesmente variações em torno de. Nos tempos de hoje, apesar de tanta mediocridade, André de Sena não é um poeta do entretenimento. Confesso, sua poesia me conduz a uma aprazível expectativa. Na verdade, seu livro é um esconder-se e um mostrar-se, em trânsito, no sentido de aferir a emoção e a vida.
A SUBVERSÃO PELO SONETO
Entrevista ao jornalista Schneider Carpeggiani (publicada no Jornal do Commércio de 14/08/08)
Com edição independente, o poeta e jornalista André de Sena lança amanhã, às 18h30, seu segundo livro, Miratio, no bar Casa da Moeda. O primeiro foi Bosques da Moira (2005), que deu origem ao seu blog www.bosquesdamoira.blogspot.com. Em Miratio, André lança mão da clássica forma do soneto, muitas vezes de maneira irônica. É o caso de versos como “Dos cínicos, a sátira desfaz / o sorriso de prata das alturas / e, tocando o bordão das coisas más, / o astro sorri de nossas desventuras”. O trabalho do autor espelha ainda sua fixação pelos meandros da poesia ultra-romântica: “Às vezes trago um frio de corrimões / na alma! um vento invernal que vem e passa / e me faz ser – espectro das monções – / canção gelada que espelhos embaça. // No cristal e no vidro há todo um risco, / uma sereia fria que invita a mente / a estados de alma lânguidos, dormentes, / um perder-se ante o olhar do basilisco. // Em frente ao espelho, eu tenho me despido / de reflexo e me vejo feito vidro”. André lembra que a forma é a “espinha dorsal da literatura”:
Comente um pouco como o título do seu livro serve para reunir os poemas aqui publicados, o que é Miratio?
Etimologicamente, Miratio (ad-miratio) vem do latim e expressa o maravilhamento por alguma coisa estranha ou inaudita, mas também uma espécie de re-significação dos fenômenos do dia-a-dia. Parafraseando o poeta alemão Novalis, algo como dar ao comum um sentido elevado, ao costumeiro um aspecto misterioso, ao conhecido a dignidade do desconhecido, e ao finito o brilho das coisas infinitas.
O seu livro lança mão de sonetos, o quanto a forma é importante para a sua poesia? Como você utiliza o soneto?
A forma é a espinha dorsal da literatura. Da mesma maneira como os atletas olímpicos estão a perseguir a concretização “corporal” de seus ideais de superação física, o poeta também está ligado à sua busca, talvez mais contemplativa do que explicativa. Todo escritor anseia pela frase ou verso assassino, aquele que o “mata”, quando a obra – a carnação dessa sua busca – passa a usufruir vida própria e dele prescinde. Eu costumo escrever poemas líricos brancos (versos livres), aos quais denomino “bárbaros”, mas tenho grande amor pelas formas fixas, como os sonetos, rondós, baladas etc. Em relação aos sonetos, que aparecem com algum destaque em Miratio, mantenho a estrutura tradicional mas exploro – como é natural – meu universo de referências particulares. Algumas vanguardas já nascem velhas, no momento em que negam a inesgotabilidade das formas fixas.
Como Miratio se aproxima dos seus trabalhos anteriores?
Miratio é meu segundo livro de poesias. No primeiro, Bosques da Moira (2005), busquei uma poesia puramente onírica e evanescente, que adoro. No novo livro, não abri mão desse imagismo, mas considero Miratio menos hermético.
NOS MEANDROS DA ESCRITA
(Entrevista a jornalista Juliana Barbosa)
Poderia falar um pouco sobre sua obra de estréia e suas influências?
Escolhi para a capa de meu primeiro livro a imagem de um animal híbrido, um antigo leão-grifo, para simbolizar minha escrita. Os chifres iconizavam, na Antiguidade, a chamada cornucópia, a abundância... e há, efetivamente, uma abundância de imagens oníricas. Falar em influências é difícil, pois sempre admirei os clássicos da literatura universal sem que, contudo, eles estivessem presentes em meus escritos. Mas é possível detectar traços românticos (o gótico, por exemplo; o onírico já presente em Nerval), surrealistas, imagistas e, ainda, alguns elementos macabros, talvez influenciados por E.T.A. Hoffmann, Poe, e outros autores da literatura de horror e literatura fantástica, que sempre me cativaram.
Mas em Bosques da Moira a presença maior é a do imaginário medieval e romântico...
Em Bosques da Moira eu quis cultivar o estranho em poesia, aqueles “acordes de harmonia irreal” referidos certa vez por Wilde. Optei pelo estranho e o onírico, que também são fortes características de um dos ramos do Romantismo.
Poderia aprofundar esse conceito de literatura onírica?
Sabe aquelas recordações e imagens incríveis (muitas, assustadoras) que irrompem do antes do sono, na tênue fronteira com a vigília? Trata-se de um limbo que tem conotações com aquele ápeiron de Anaximandro, elo pacífico entre ser e não-ser, tempo e não-tempo. Muitas imagens são “pegas” de lá, ou do sonho propriamente dito, ou de impressões evanescentes durante as vigílias. Às vezes, as palavras chegam sem explicação, durante o dia mesmo. Não se trata de inspiração romântica: mesmo nas tentativas mais autobiográficas, elas possuem vida própria. O autor recebe uma estocada e morre a cada frase ou verso bem escrito.
Você é religioso? Há nessa chegada súbita da palavra alguma ligação com a epifania mística?
Não creio no misticismo, embora a poesia seja quase sempre irmã da profecia.
As atividades como jornalista ajudaram na criação de um estilo literário próprio?
Meu primeiro emprego foi como jornalista cultural. É claro que a atividade diária com a escrita, tendo que cumprir prazos e demandas as mais diversas, desenvolvida ao longo de quase uma década e iniciada num momento em que eu mal havia saído da adolescência, por volta dos 20 anos, contribuiu tecnicamente para a atividade literária. O próprio ato de escrever foi automatizado. Mas ainda tenho a impressão de que a literatura transcende a escrita realista em seus momentos mágicos – o que não quer dizer que não necessite de igual polimento e trabalho. O jornalismo catapultou a dinâmica da prosa, mas acredito ter sido indiferente à poesia, lembrando que também há uma poesia da prosa.
Há quem diga que todo escritor deseja a imortalidade. Você concorda com isso?
Escrevo meus livros, gravo minhas músicas, faço meus trabalhos sem ter ambições desmesuradas e arte para mim é mais prazer que sofrimento. Fama? No século II, o imperador Marco Aurélio – a quem acho por vezes excessivamente idealista, mas, em muita coisa, irretocável – já lembrava, compondo toda uma teoria em relação a ela: “Esta vida mortal é uma pequena coisa, vivida num cantinho da terra; e pequena também é a mais duradoura fama – dependente, como é, de uma sucessão de pequenos homens de curta duração, desconhecedores das suas próprias pessoas, e muito mais ainda de uma outra já há muito morta e enterrada. Ou é a ilusão da celebridade que te perturba? Não percas de vista a rápida investida do esquecimento e os abismos de eternidade que nos esperam e nos precedem; repara como são ocos os ecos do aplauso, como são inconstantes e sem discernimento os juízos dos pretensos admiradores, e que insignificante é a arena da fama humana. Porque a terra inteira é apenas um ponto, e a nossa própria morada, um minúsculo canto nela; e quantos lá há que te vão louvar, e que tipo de homens são eles? Aproveita o dia de hoje o melhor possível. Aqueles que, em vez disso, almejam os aplausos de amanhã não se lembram de que as futuras gerações não serão de modo nenhum diferentes das de hoje, que agora tanto põem à prova a tua paciência, e não menos mortais. De qualquer maneira, importa-te muito a maneira como as línguas da posteridade falem, ou que opiniões sobre ti tenham?”.
E como analisa a recepção dos leitores em relação à sua poesia?
O público que não é acostumado a ler poesia, ainda mais a poesia de feitio imagista, geralmente estranha meus poemas. Mas tenho sempre em mente uma frase de Herder: “Dos teus leitores, uma centena não te entenderá, uma centena há-de bocejar, uma centena desprezar-te-á, uma centena blasfemará, uma centena preferirá os atrativos da serpente do hábito e ficará exatamente como é... Mas repara que talvez possa sobrar ainda uma centena em que as tuas palavras dêem frutos”.
O BOSQUE, A MOIRA E A POESIA*
(Texto do ensaista, crítico literário e professor universitário José Mário Rodrigues, publicada no jornal O Norte no mês de setembro de 2002 e, posteriormente, republicada no livro “Os abismos do ser”, de 2009)
André de Sena pontifica como um dos jovens mais talentosos da moderna cena cultural da nossa velha Paraíba. Leitor voraz da tradição e da modernidade, do ontem e do agora, pelo seu múltiplo horizonte de expectativas e interesses intelectuais têm destilado saberes diversos que, cruzando-se e entrecruzando-se numa polimórfica ambiência discursiva, vão do jornalismo, seu batente profissional cotidiano, à música, sendo ele integrante de uma banda de rock; do cinema à literatura, passando, como não poderia deixar de ser, pelas navegações internáuticas da irresistível e sedutora linguagem computacional.
Agora, mais recentemente, brinda-nos André de Sena com Bosques da Moira, seu livro de estréia no território da criação literária, mais precisamente a que se consubstancia nas fronteiras do poético. E o livro de André de Sena, ressalvados os inevitáveis titubeios e imperfeições próprios de quem dá os primeiros passos na difícil arte da composição poética, a qual requer, para além de uma bem trabalhada urdidura formal, a manifestação convincente de significativas experiências humanas, se me afigura sinalizador de uma promissora vocação, muito distante de certos primarismos lingüísticos que insistem, ingênua e equivocadamente, em se autodenominarem poesia.
É que, sendo hegemonicamente onipresente, a poesia tanto emerge como uma percepção rigorosamente fundante e original das coisas, seres e fenômenos, como exige, de quem a ela se dedica, a consolidação da sua nervura essencial numa forma que, bem ordenada, se configure numa estrutura lingüística capaz de gerar uma multiplicidade de sentidos.
Quando esse conúbio forma versus fundo não se estabelece de uma maneira minimamente satisfatória, a literariedade se debilita, e o texto fracassa esteticamente, tornando-se tudo, do confessionalismo piegas à catarse emocional, menos poesia, menos poema, consoante as reflexões mais seguras oriundas de teóricos e estudiosos envolvidos com esse importante departamento do plural território da genealogia literária.
Bosques da Moira persegue esse consórcio e, em alguns instantes, a busca logra o êxito de acumpliciar, na carnadura concreta da linguagem, o ritmo, a imagem e idéia, de modo a fazer com que, transfigurada pela alquimia transformadora da linguagem, a realidade seja percebida de um modo mais vertical e iluminador.
No primeiro poema do livro, “Demônios”, por exemplo, toda a soturna atmosfera poemática é marcada por um recorrente culto de contrastes, o que empresta ao poema uma tonalidade eminentemente conflituosa, dicotômica, barroca, inviabilizando-se, desse modo, nos subterrâneos simbólicos textuais, qualquer possibilidade mais pacífica de apreensão do real.
Dia, noite, ar, prisão, sombras, luz, eis alguns sememas que confirmam a coreografia barroca do poema e, no limite, falam menos da exterioridade das paisagens que cercam o poeta, que da sua interioridade atormentada, a qual, confessionalmente, assume: “sou os bichos-demônios / sou a menina bicho”.
É que, alados e sombrios, os anjos e demônios que perseguem o poeta, e que cartografam a alucinatória e sonâmbula atmosfera que permeia parte dos seus poemas, se configuram em projeções e representações de dramas íntimos que mapeiam a poliédrica alma do inquieto eu-lírico que André de Sena mobiliza na arquitetura semântica dos seus poemas.
Movendo-se dos vetores apolíneo para o dionisíaco, a poética de André de Sena desconfia da consensual e pacífica aparência das coisas e pleiteia uma espécie de retorno às dimensões mais primevas do real; distancia-se do logos e parece querer abraçar a inefabilidade do mito, anterior à própria história e razão e, paradoxalmente, delas fundador emérito, daí a ingente busca das “regiões extremas, do recesso das coisas, do labirinto da alma, das terras de loucura e de encanto, praças de si esquecidas e em cuja ascensão, tendo a razão cativa, achamos, em novas terras, visões mais puras e a louca paz das avezinhas”.
Aqui, demitindo-se a previsibilidade das fronteiras mais rotinizadas e referenciais do mundo, a poética de André de Sena, em acendrada postura transmanente, busca a utopia da liberdade infinita e a transcendência ao cárcere asfixiante das horas. Na mágica estrada de “álamos brancos”, a da poesia com a peculiaridade da sua lógica contracultural e alucinatória, o itininerário percorrido por André de Sena quer aprender o tempo numa dimensão totalizadora, sem começo, nem meio e nem fim.
No terceiro poema do livro, “Um poeta”, emerge, em perspectiva metalingüística, a função da poesia e o papel do poeta, ser que, movido pelo “frenesi da procura”, busca remover a crosta da previsibilidade que cerca as coisas, a fim de revelá-las na plenitude da sua essencialidade. Ser de “afago e de grito e que procura o entendimento do riso mais aflito”, o poeta, cada vez mais marginalizado pela crescente reificação da sociedade, quer recuperar, para a poesia, o seu poder nomeativo do real, hoje ocupado hegemonicamente pelos mascaradores e competentes discursos da ideologia, hábil legitimadora de uma ordem social injusta, de acordo com as lúcidas ponderações de Alfredo Bosi, presentes em seu clássico livro O Ser o Tempo da Poesia.
Nos Bosques da Moira, inventados pelo exacerbado e surreal imaginário de André de Sena, desfilam, ainda os fantasmas da morte, a passagem inflexível do tempo, os abismos irresistíveis do amor com os seus mistérios e seduções, e a natureza com a vastidão incontornável dos seus elementos componenciais; natureza que se impõe menos pelo exotismo decorativo das suas colorações exteriores que por se configurar como projeção íntima das essências interiores do poeta.
Como diria Mário de Andrade, os jovens talentosos são portadores de desequilíbrios poderosos, sobretudo quando incursionam pela desbordante seara da criação poética, em cujo estuário somente a experiência, sedimentada pelo estudo paciente e pela ação rigorosa do tempo, promove a conquista da plena maturidade.
Com Ezra Pound aprendemos, e convém nunca esquecer essa luminosa lição, que “domínio de qualquer arte supõe o trabalho de uma vida inteira”. Bosques da Moira, não sendo um livro consumado, é portador dos poderosos desequilíbrios a que aludiu o criador de Macunaíma. Mas somente a má vontade de críticos que somente têm olhos para os autores consagrados e, por pura comodidade, ignoram, solenemente, a literatura do agora, é que não perceberá que, nos desvãos desse bosque, habita, com o pasmo que lhe é essencialmente peculiar, a moira da poesia, com a sua indelével cartografia de espantos e o olhar inauguralíssimo que ela faz recair sobre todos os recantos do real.
Culto, leitor voraz, André de Sena não permite que a moira que lhe habita os bosques da imaginação poética naufrague nas águas turvas do ramerrão sentimental e confessionalista em que jazem algumas produções locais, que, por absoluta carência no trato com a linguagem e por indisfarçável pobreza inerente à arquitetura composicional, podem, convém reiterar, ser tudo, menos poesia, menos poema, compreendido este como uma organização verbal capaz de gerar uma multiplicidade infinita de sentidos.
No mais, Bosques da Moira é um livro que revela talento, exibe qualidade e insere o seu autor, meritoriamente, no quadro das vocações mais promissoras da contemporaneidade lírica paraibana.
* Texto crítico de 2002 sobre a primeira versão de Bosques da Moira, publicada um ano antes em limitada tiragem de 100 exemplares (sendo que a versão final e oficial do livro só sairá três anos depois, em 2005, com 60 poemas inéditos). Esta primeira versão da obra (na ocasião, André de Sena atuava na imprensa paraibana) continha apenas 17 poemas, sendo que dentre os aludidos pelo crítico em seu texto, “Demônios”, não existe mais; “A mágica estrada de álamos brancos” aparece em uma versão antiga, diferente da que pode ser encontrada na versão oficial de Bosques da Moira (2005); e “Um poeta” também aparece numa versão antiga, modificada na versão final da obra.