Bosques da Moira
Página dedicada aos trabalhos do escritor e músico recifense André de Sena
10.5.09
21.7.08
LANÇAMENTO
"Miratio" é o novo livro do autor recifense André de Sena, lançado pelo selo editorial Draco Publicações. A obra conta com quarenta poemas inéditos, entre versos brancos e sonetos. Para adquirir um exemplar, escreva para o mail bosquesdamoira@yahoo.com.br
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POEMA DE ABERTURA:
Abditae causae
Fraco mortal, que aspiras às sutis essências,
ao círculo das formas, ser das aparências,
qual cristalina água, a perscrutar o seio
do que há intangível, à matéria em meio,
estás cansado e choras (só te embala o vento
o ecoar da ampulheta num abismo lento)
e, cerzindo a tristeza triplos espantalhos,
ousas vibrar ainda o alaúde em atalhos.
Porque por mais que busques a tudo o silêncio
(o silêncio é cantar para os astros suspensos,
a música inaudível das esferas vastas –
tem-se a impressão mas nunca o som e a nota casta),
cantando seguirás, mesmo em padecimento
de, na verdade, não haver ouvido atento.
E o entardecer se expande em fogo na floresta;
há vária explicação e, também, vária festa:
é bom ouvir às árvores e aos animais,
às estéreis montanhas que exsudam cristais,
aos gemidos dos ventos adensando a trama
das águas nos rios, de verdes bosques às ramas;
como cabrito atado à mãe e à dura teta,
se entretém os infantes co’ agrestes cornetas...
toda a natura segue a prumo seus alvitres,
somente o ser pensante e o poeta, esses biltres,
apartam-se de tudo, buscando esse tudo –
e responde o universo só um grito mudo.
São necessários sismos à rija estrutura,
conhecidos venenos a aprestar as curas;
assim o canto irrompe e o solitário vate
encetará co’a própria lira um vão combate
(oleiro do vazio, em sonhos se desdobra,
que decerto é ilusão alquimia e grã obra;
por mais difícil que seja, crê na aventura –
que a razão é a loucura da própria loucura);
porém à força mesmo de enformar os ventos
mostrarás quão profundos são os teus lamentos.
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POEMA DE ABERTURA:
Abditae causae
Fraco mortal, que aspiras às sutis essências,
ao círculo das formas, ser das aparências,
qual cristalina água, a perscrutar o seio
do que há intangível, à matéria em meio,
estás cansado e choras (só te embala o vento
o ecoar da ampulheta num abismo lento)
e, cerzindo a tristeza triplos espantalhos,
ousas vibrar ainda o alaúde em atalhos.
Porque por mais que busques a tudo o silêncio
(o silêncio é cantar para os astros suspensos,
a música inaudível das esferas vastas –
tem-se a impressão mas nunca o som e a nota casta),
cantando seguirás, mesmo em padecimento
de, na verdade, não haver ouvido atento.
E o entardecer se expande em fogo na floresta;
há vária explicação e, também, vária festa:
é bom ouvir às árvores e aos animais,
às estéreis montanhas que exsudam cristais,
aos gemidos dos ventos adensando a trama
das águas nos rios, de verdes bosques às ramas;
como cabrito atado à mãe e à dura teta,
se entretém os infantes co’ agrestes cornetas...
toda a natura segue a prumo seus alvitres,
somente o ser pensante e o poeta, esses biltres,
apartam-se de tudo, buscando esse tudo –
e responde o universo só um grito mudo.
São necessários sismos à rija estrutura,
conhecidos venenos a aprestar as curas;
assim o canto irrompe e o solitário vate
encetará co’a própria lira um vão combate
(oleiro do vazio, em sonhos se desdobra,
que decerto é ilusão alquimia e grã obra;
por mais difícil que seja, crê na aventura –
que a razão é a loucura da própria loucura);
porém à força mesmo de enformar os ventos
mostrarás quão profundos são os teus lamentos.
9.12.06
ALGUMA CRÍTICA
BOSQUES DA MOIRA - POESIA FANTÁSTICA
(Por Ana Paula Pessoa, publicada no jornal Correio da Paraíba, em 18/02/06)
Escritor e músico recifense, nascido em 26 de novembro de 1975, André de Sena Wanderley desde cedo iniciou-se no mundo da criação e da contemplação artísticas, obtendo o grau de Mestre em Literatura aos 26 anos de idade. Paralelamente ao seu trabalho diário como cronista cultural em veículos jornalísticos, sua poesia, que oscila entre o fantástico, o aleatório e o macabro, vem sendo publicada em revistas, jornais literários e em edições de tiragens limitadas feitas para serem distribuídas entre os amigos, mas muitos autores profissionais já se pronunciaram sobre ela. Constituídos, em geral, de versos curtos e brancos, os poemetos senianos vivem em uma atmosfera fantástica e são chamados pelo autor de “bárbaros” ou “filhotes de dragão”. Um escritor acadêmico diria que não foram feitos para o bronze, mas em minha opinião eles se bastam em termos de estranheza e liberdade expressiva, bárbara mesmo.
O primeiro livro de André de Sena, Bosques da Moira, foi lançado em uma tiragem limitada de 200 exemplares distribuídos entre os amigos, em 2003. Depois foi relançado em uma edição oficial, de grande tiragem, revista e ampliada, com 60 “poemas bárbaros”, pelo selo editorial do autor, Draco Publicações, em novembro de 2005.
De acordo com o poeta Políbio Alves (Personalidade Cultural da União Brasileira dos Escritores e Autore dell'Ano de 1999 pelo IBE - International Board Examiners), em um artigo de jornal publicado com o nome “O Bosque, a Moira e a Poesia”, “poucos textos poéticos têm o encanto, a magia e a densidade dos poemas senianos, que conjugam a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem. Encontro neles um convívio prazeroso, numa outra dimensão que não a da vida cotidiana”. No mesmo texto, Políbio chama atenção para os leitores não acostumados com os usos da poesia de cunho fantástico: “aos leitores por águas nunca dantes navegadas, cuidado com a travessia, muito cuidado. Chegar ao coração do poema equivale a debruçar-se além da escritura poética e deixar-se impregnar totalmente por ela. Os seus poemas são como uma fronteira entre o profano e o divino, o subnatural e o tangível”.
Outro crítico que se pronunciou acerca do trabalho de André de Sena foi o escritor português Antônio Soares, em outra resenha de jornal. O mesmo declarou: “em seus poemas pode-se encontrar o calor antigo da poesia, que só poderá ser detido nas estruturas metafóricas de um imagismo peculiar, portanto inovado”. Soares explicitou o desconstrutivismo flagrante nos versos senianos, manifesto no ato de refazer termos e expressões de sentido oximórico e, também, nas imagens cromáticas, vivas, repletas de elementos sinestésicos. “Nesse concentrar-se ou constante volver-se sobre si mesmas, se estruturam as forças dinâmicas, subjacentes, modeladas em sentimentos, fantasias, intuições, traços oníricos que desestruturam e quebram as barreiras da horaciana arte poética. O real dilui-se no fantástico e um avanço sinestesicamente mágico suspende tudo”.
Mais um poeta veterano a escrever uma resenha sobre a carpintaria poética de André de Sena foi Sérgio de Castro Pinto. Em um texto publicado com o título “Poesia pra ser lembrada”, disse que “sua poesia contraria o poema metalingüístico, se considerarmos como tal aquele que veicula apenas a preocupação do poeta com a linguagem. E isso porque, se as vanguardas cultivaram seu discurso metalingüístico subordinadas à razão, o de André de Sena não se mostra regido pelo sol a pino do meio-dia. O que não o impede de convocar palavras luminosas, solares, com o intuito de lançar luz sobre um universo impregnado de sombras. Tudo se opera como se o sol de suas palavras perdesse o pino e descortinasse um mundo surreal em plena luz do dia”. No mesmo texto, Castro Pinto evocou o padrão das antigas parlendas presente em muitos de seus poemetos, que são comparados às quadras de feitiços medievais e à linguagem hipnótica das crianças. Outros críticos filiaram sua poesia versolibrista como uma encruzilhada entre o simbolismo e o surrealismo que geraria, em muitas ocasiões, uma linguagem hermética que tenderia ao infinito e ao aleatório.
Isso foi corroborado em um texto publicado na Revista Encontro, do Gabinete Português de Leitura, escrito pela Doutora em Literatura e também poeta Lucila Nogueira, que ressalta os aspectos góticos da carpintaria seniana. Segundo ela, “André de Sena realiza uma evolução do poema de forma fixa à dicção contemporânea; ao mesmo tempo, a atmosfera gótica que nos invade à leitura de seus versos demonstra uma sintonia com elementos mágicos da natureza a que não foram insensíveis historicamente os grandes escritores, o que transforma a sua oração do segredo noturno em feitiço sobrenatural”. E, concluindo, pergunta-se a autora: “Diante de uma poesia como essa o que se pode fazer a não ser resgatar, com André de Sena, o caráter da poesia como talismã mágico do início da espécie humana?”.
Em suma, estando mais afeita ao sentimento poético do que às exegeses téorico-literárias, comparo os poemas senianos com a estrutura de sonho de um arabesco maravilhoso que sua obra futura com certeza poderá edificar. Quando recebo um de seus pequenos livrinhos coloridos, na verdade, capítulos divulgados antes da impressão de uma nova obra, descubro que ele é um desses autores que, ao invés de contemplar a superfície do Ideal, preferem mirar o que há de mais sombrio na própria invenção. Continuo lendo seus “filhotes de dragão” com a mesma sensação “de quem abre um baú cheio de coisas misteriosas”, como falou outro leitor de seus poemas. Em seus versos livres, às vezes me engasgo com estranhas belezas em estado puro.
OS PÂNTANOS DA CULTURA
Crítica publicada no Jornal da Paraíba (PB) pelo poeta Políbio Alves
Poucos textos poéticos, aqui da província do Varadouro e de outras alhures têm a magia, o encanto e a densidade destes poemas, Bosques da Moira. Sobretudo em que a capacidade de convivência entre a aura e a sedução das palavras revela um autor que conjuga a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem.
OS PÂNTANOS DA CULTURA
Crítica publicada no Jornal da Paraíba (PB) pelo poeta Políbio Alves
Poucos textos poéticos, aqui da província do Varadouro e de outras alhures têm a magia, o encanto e a densidade destes poemas, Bosques da Moira. Sobretudo em que a capacidade de convivência entre a aura e a sedução das palavras revela um autor que conjuga a demarcação de possíveis itinerários nos signos da linguagem.
Encontro nos Bosques da Moira um convívio prazeroso, numa outra dimensão que não a da vida cotidiana. Decerto, a paixão, o impulso desatado, sensorial e orgânico em busca dos caminhos para chegar ao reino da Origem, o Mito, entendido não como fantasia irresponsável, ms como o poder instaurador do mundo e do homem. Basta lembrar que nas palavras de Paracelso – 1493-1541 (Felipe Auréolo Teofrasto Bombasto de Hohenheim, mago, alquimista, médico escritor de grandes obras filosóficas e religiosas, nascido em Eisiendeln, povoado da Suíça), Azoth é o princípio criador da natureza ou a força vital espiritualizada. Cherio é a quintessência de um corpo, seja ele animal, vegetal ou numeral; é o seu quinto princípio ou potência. Derses é o sopro oculto da Terra que ativa seu desenvolvimento. Ilech Primum é a Força Primordial ou Causal. De fato, um texto que reflui, o tempo, matéria de estranheza e memória. E ainda pode ser lido como um livro de parábolas – coisas de poeta – centrado na diversificação das mitologias que rege o universo pessoal e impessoal do homem.
Bosques da Moira é mais do que um livro de poesia: é a fronteira entre o profano e o divino, o subnatural e o tangível, através do sonho e da imaginação fértil do poeta. Em suma, é a incandescência lúcida e alucinada do proibido, a excitação do mistério, a ambigüidade do prazer e a resplandecência da vida. Sim, em confluência com os dogmas de nossas ações-reações culturais e estéticas. É isso. Os pântanos da escritura de André de Sena nos remetem a medida de sua poesia – um belo instante de comvida expressão de atmosferas, ossificado no seu itinerante veio de criatividade. Assim, de certo modo, no dizer de uma estrofe de Virgílio, “Eu tiro ouro do estrume Ênio”.
Nesta perspectiva, este texto revela uma direção talhada pela transgressão humana. Ao leitor por águas antes nunca navegadas, cuidado com a travessia, muito cuidado. Chegar ao coração do poema, creio, é você se debruçar sobre a escritura poética e deixar-se impregnar por ela. Essa impregnação se faz, por exemplo, através de leituras não analíticas, até você se sentir penetrado pela semântica do poema. Os restos são glosas, simplesmente variações em torno de. Nos tempos de hoje, apesar de tanta mediocridade, André de Sena não é um poeta do entretenimento. Confesso, sua poesia me conduz a uma aprazível expectativa. Na verdade, seu livro é um esconder-se e um mostrar-se, em trânsito, no sentido de aferir a emoção e a vida.
A SUBVERSÃO PELO SONETO
Entrevista ao jornalista Schneider Carpeggiani (publicada no Jornal do Commércio de 14/08/08)
Com edição independente, o poeta e jornalista André de Sena lança amanhã, às 18h30, seu segundo livro, Miratio, no bar Casa da Moeda. O primeiro foi Bosques da Moira (2005), que deu origem ao seu blog www.bosquesdamoira.blogspot.com. Em Miratio, André lança mão da clássica forma do soneto, muitas vezes de maneira irônica. É o caso de versos como “Dos cínicos, a sátira desfaz / o sorriso de prata das alturas / e, tocando o bordão das coisas más, / o astro sorri de nossas desventuras”. O trabalho do autor espelha ainda sua fixação pelos meandros da poesia ultra-romântica: “Às vezes trago um frio de corrimões / na alma! um vento invernal que vem e passa / e me faz ser – espectro das monções – / canção gelada que espelhos embaça. // No cristal e no vidro há todo um risco, / uma sereia fria que invita a mente / a estados de alma lânguidos, dormentes, / um perder-se ante o olhar do basilisco. // Em frente ao espelho, eu tenho me despido / de reflexo e me vejo feito vidro”. André lembra que a forma é a “espinha dorsal da literatura”:
Comente um pouco como o título do seu livro serve para reunir os poemas aqui publicados, o que é Miratio?
Etimologicamente, Miratio (ad-miratio) vem do latim e expressa o maravilhamento por alguma coisa estranha ou inaudita, mas também uma espécie de re-significação dos fenômenos do dia-a-dia. Parafraseando o poeta alemão Novalis, algo como dar ao comum um sentido elevado, ao costumeiro um aspecto misterioso, ao conhecido a dignidade do desconhecido, e ao finito o brilho das coisas infinitas.
O seu livro lança mão de sonetos, o quanto a forma é importante para a sua poesia? Como você utiliza o soneto?
A forma é a espinha dorsal da literatura. Da mesma maneira como os atletas olímpicos estão a perseguir a concretização “corporal” de seus ideais de superação física, o poeta também está ligado à sua busca, talvez mais contemplativa do que explicativa. Todo escritor anseia pela frase ou verso assassino, aquele que o “mata”, quando a obra – a carnação dessa sua busca – passa a usufruir vida própria e dele prescinde. Eu costumo escrever poemas líricos brancos (versos livres), aos quais denomino “bárbaros”, mas tenho grande amor pelas formas fixas, como os sonetos, rondós, baladas etc. Em relação aos sonetos, que aparecem com algum destaque em Miratio, mantenho a estrutura tradicional mas exploro – como é natural – meu universo de referências particulares. Algumas vanguardas já nascem velhas, no momento em que negam a inesgotabilidade das formas fixas.
Como Miratio se aproxima dos seus trabalhos anteriores?
Miratio é meu segundo livro de poesias. No primeiro, Bosques da Moira (2005), busquei uma poesia puramente onírica e evanescente, que adoro. No novo livro, não abri mão desse imagismo, mas considero Miratio menos hermético.
NOS MEANDROS DA ESCRITA
(Entrevista a jornalista Juliana Barbosa)
Poderia falar um pouco sobre sua obra de estréia e suas influências?
Escolhi para a capa de meu primeiro livro a imagem de um animal híbrido, um antigo leão-grifo, para simbolizar minha escrita. Os chifres iconizavam, na Antiguidade, a chamada cornucópia, a abundância... e há, efetivamente, uma abundância de imagens oníricas. Falar em influências é difícil, pois sempre admirei os clássicos da literatura universal sem que, contudo, eles estivessem presentes em meus escritos. Mas é possível detectar traços românticos (o gótico, por exemplo; o onírico já presente em Nerval), surrealistas, imagistas e, ainda, alguns elementos macabros, talvez influenciados por E.T.A. Hoffmann, Poe, e outros autores da literatura de horror e literatura fantástica, que sempre me cativaram.
Mas em Bosques da Moira a presença maior é a do imaginário medieval e romântico...
Em Bosques da Moira eu quis cultivar o estranho em poesia, aqueles “acordes de harmonia irreal” referidos certa vez por Wilde. Optei pelo estranho e o onírico, que também são fortes características de um dos ramos do Romantismo.
Poderia aprofundar esse conceito de literatura onírica?
Sabe aquelas recordações e imagens incríveis (muitas, assustadoras) que irrompem do antes do sono, na tênue fronteira com a vigília? Trata-se de um limbo que tem conotações com aquele ápeiron de Anaximandro, elo pacífico entre ser e não-ser, tempo e não-tempo. Muitas imagens são “pegas” de lá, ou do sonho propriamente dito, ou de impressões evanescentes durante as vigílias. Às vezes, as palavras chegam sem explicação, durante o dia mesmo. Não se trata de inspiração romântica: mesmo nas tentativas mais autobiográficas, elas possuem vida própria. O autor recebe uma estocada e morre a cada frase ou verso bem escrito.
Você é religioso? Há nessa chegada súbita da palavra alguma ligação com a epifania mística?
Não creio no misticismo, embora a poesia seja quase sempre irmã da profecia.
As atividades como jornalista ajudaram na criação de um estilo literário próprio?
Meu primeiro emprego foi como jornalista cultural. É claro que a atividade diária com a escrita, tendo que cumprir prazos e demandas as mais diversas, desenvolvida ao longo de quase uma década e iniciada num momento em que eu mal havia saído da adolescência, por volta dos 20 anos, contribuiu tecnicamente para a atividade literária. O próprio ato de escrever foi automatizado. Mas ainda tenho a impressão de que a literatura transcende a escrita realista em seus momentos mágicos – o que não quer dizer que não necessite de igual polimento e trabalho. O jornalismo catapultou a dinâmica da prosa, mas acredito ter sido indiferente à poesia, lembrando que também há uma poesia da prosa.
Há quem diga que todo escritor deseja a imortalidade. Você concorda com isso?
Escrevo meus livros, gravo minhas músicas, faço meus trabalhos sem ter ambições desmesuradas e arte para mim é mais prazer que sofrimento. Fama? No século II, o imperador Marco Aurélio – a quem acho por vezes excessivamente idealista, mas, em muita coisa, irretocável – já lembrava, compondo toda uma teoria em relação a ela: “Esta vida mortal é uma pequena coisa, vivida num cantinho da terra; e pequena também é a mais duradoura fama – dependente, como é, de uma sucessão de pequenos homens de curta duração, desconhecedores das suas próprias pessoas, e muito mais ainda de uma outra já há muito morta e enterrada. Ou é a ilusão da celebridade que te perturba? Não percas de vista a rápida investida do esquecimento e os abismos de eternidade que nos esperam e nos precedem; repara como são ocos os ecos do aplauso, como são inconstantes e sem discernimento os juízos dos pretensos admiradores, e que insignificante é a arena da fama humana. Porque a terra inteira é apenas um ponto, e a nossa própria morada, um minúsculo canto nela; e quantos lá há que te vão louvar, e que tipo de homens são eles? Aproveita o dia de hoje o melhor possível. Aqueles que, em vez disso, almejam os aplausos de amanhã não se lembram de que as futuras gerações não serão de modo nenhum diferentes das de hoje, que agora tanto põem à prova a tua paciência, e não menos mortais. De qualquer maneira, importa-te muito a maneira como as línguas da posteridade falem, ou que opiniões sobre ti tenham?”.
Existe uma função social da arte?
Há quem diga que as grandes obras, de tão boas, constituem quase um acinte à realidade. Não vou tão longe. Mas, em minha opinião, a verdadeira arte é sinônima de atividade solitária, tanto para quem cria quanto para quem recria (ou recebe). Já o entretenimento, que possui algumas semelhanças com a arte, pode ter uma função social, de descoberta. Mas a arte mais revolucionária é aquela de cunho solitário.
E como analisa a recepção dos leitores em relação à sua poesia?
O público que não é acostumado a ler poesia, ainda mais a poesia de feitio imagista, geralmente estranha meus poemas. Mas tenho sempre em mente uma frase de Herder: “Dos teus leitores, uma centena não te entenderá, uma centena há-de bocejar, uma centena desprezar-te-á, uma centena blasfemará, uma centena preferirá os atrativos da serpente do hábito e ficará exatamente como é... Mas repara que talvez possa sobrar ainda uma centena em que as tuas palavras dêem frutos”.
(Entrevista a jornalista Juliana Barbosa)
Poderia falar um pouco sobre sua obra de estréia e suas influências?
Escolhi para a capa de meu primeiro livro a imagem de um animal híbrido, um antigo leão-grifo, para simbolizar minha escrita. Os chifres iconizavam, na Antiguidade, a chamada cornucópia, a abundância... e há, efetivamente, uma abundância de imagens oníricas. Falar em influências é difícil, pois sempre admirei os clássicos da literatura universal sem que, contudo, eles estivessem presentes em meus escritos. Mas é possível detectar traços românticos (o gótico, por exemplo; o onírico já presente em Nerval), surrealistas, imagistas e, ainda, alguns elementos macabros, talvez influenciados por E.T.A. Hoffmann, Poe, e outros autores da literatura de horror e literatura fantástica, que sempre me cativaram.
Mas em Bosques da Moira a presença maior é a do imaginário medieval e romântico...
Em Bosques da Moira eu quis cultivar o estranho em poesia, aqueles “acordes de harmonia irreal” referidos certa vez por Wilde. Optei pelo estranho e o onírico, que também são fortes características de um dos ramos do Romantismo.
Poderia aprofundar esse conceito de literatura onírica?
Sabe aquelas recordações e imagens incríveis (muitas, assustadoras) que irrompem do antes do sono, na tênue fronteira com a vigília? Trata-se de um limbo que tem conotações com aquele ápeiron de Anaximandro, elo pacífico entre ser e não-ser, tempo e não-tempo. Muitas imagens são “pegas” de lá, ou do sonho propriamente dito, ou de impressões evanescentes durante as vigílias. Às vezes, as palavras chegam sem explicação, durante o dia mesmo. Não se trata de inspiração romântica: mesmo nas tentativas mais autobiográficas, elas possuem vida própria. O autor recebe uma estocada e morre a cada frase ou verso bem escrito.
Você é religioso? Há nessa chegada súbita da palavra alguma ligação com a epifania mística?
Não creio no misticismo, embora a poesia seja quase sempre irmã da profecia.
As atividades como jornalista ajudaram na criação de um estilo literário próprio?
Meu primeiro emprego foi como jornalista cultural. É claro que a atividade diária com a escrita, tendo que cumprir prazos e demandas as mais diversas, desenvolvida ao longo de quase uma década e iniciada num momento em que eu mal havia saído da adolescência, por volta dos 20 anos, contribuiu tecnicamente para a atividade literária. O próprio ato de escrever foi automatizado. Mas ainda tenho a impressão de que a literatura transcende a escrita realista em seus momentos mágicos – o que não quer dizer que não necessite de igual polimento e trabalho. O jornalismo catapultou a dinâmica da prosa, mas acredito ter sido indiferente à poesia, lembrando que também há uma poesia da prosa.
Há quem diga que todo escritor deseja a imortalidade. Você concorda com isso?
Escrevo meus livros, gravo minhas músicas, faço meus trabalhos sem ter ambições desmesuradas e arte para mim é mais prazer que sofrimento. Fama? No século II, o imperador Marco Aurélio – a quem acho por vezes excessivamente idealista, mas, em muita coisa, irretocável – já lembrava, compondo toda uma teoria em relação a ela: “Esta vida mortal é uma pequena coisa, vivida num cantinho da terra; e pequena também é a mais duradoura fama – dependente, como é, de uma sucessão de pequenos homens de curta duração, desconhecedores das suas próprias pessoas, e muito mais ainda de uma outra já há muito morta e enterrada. Ou é a ilusão da celebridade que te perturba? Não percas de vista a rápida investida do esquecimento e os abismos de eternidade que nos esperam e nos precedem; repara como são ocos os ecos do aplauso, como são inconstantes e sem discernimento os juízos dos pretensos admiradores, e que insignificante é a arena da fama humana. Porque a terra inteira é apenas um ponto, e a nossa própria morada, um minúsculo canto nela; e quantos lá há que te vão louvar, e que tipo de homens são eles? Aproveita o dia de hoje o melhor possível. Aqueles que, em vez disso, almejam os aplausos de amanhã não se lembram de que as futuras gerações não serão de modo nenhum diferentes das de hoje, que agora tanto põem à prova a tua paciência, e não menos mortais. De qualquer maneira, importa-te muito a maneira como as línguas da posteridade falem, ou que opiniões sobre ti tenham?”.
Existe uma função social da arte?
Há quem diga que as grandes obras, de tão boas, constituem quase um acinte à realidade. Não vou tão longe. Mas, em minha opinião, a verdadeira arte é sinônima de atividade solitária, tanto para quem cria quanto para quem recria (ou recebe). Já o entretenimento, que possui algumas semelhanças com a arte, pode ter uma função social, de descoberta. Mas a arte mais revolucionária é aquela de cunho solitário.
E como analisa a recepção dos leitores em relação à sua poesia?
O público que não é acostumado a ler poesia, ainda mais a poesia de feitio imagista, geralmente estranha meus poemas. Mas tenho sempre em mente uma frase de Herder: “Dos teus leitores, uma centena não te entenderá, uma centena há-de bocejar, uma centena desprezar-te-á, uma centena blasfemará, uma centena preferirá os atrativos da serpente do hábito e ficará exatamente como é... Mas repara que talvez possa sobrar ainda uma centena em que as tuas palavras dêem frutos”.
MÚSICA
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CD 1 - TERZA RIMA (2005)
(1. Lobo, aos olhos do ocaso)
(2. Sotiripse ed ogof)
(3. O céu, o universo, a chuva)
(4. Causa mortis)
(5. O Uraeus - instr.)
(6. Com a cabeça decepada)
₢copyright by André de Sena (direitos reservados)
André de Sena (guitarras, vocal)
Cleidson Araújo (bateria)
Marcos Alexandre (baixo)
Paulo Pellee (teclados)
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CD 2 - PRETEXTO DE LUAR (Música para violão)(2007)
(1. Pretexto de Luar n°1)
(2. Pretexto de Luar n°2)
(3. Pretexto de Luar n°3)
(4. Pretexto de Luar n°4)
(5. Pretexto de Luar n°5)
(6. Pretexto de Luar n°6)
₢copyright by André de Sena (direitos reservados)
André de Sena (violão)
Paulo Pellee (teclados)
ALGUMA POESIA
Poemas catalogados pela Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (copyright do autor). Totalmente proibida a reprodução sem prévia autorização
As palavras
As palavras, imunes à lembrança,
flutuam na noite de coral,
inquietas hamadríades ao sabor dos ventos...
Escorregam pelos canteiros,
despem-se em arpejos vegetais,
borboleteiam a luz, antecipam as mariposas
e se deixam embalar nas ondas, turmalinas.
Na água branca, no cisne incolor,
por trás da paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge apenas a esfíngica morte
no grito de animal inventado,
fabular e inominável.
Mas são delas os lampiões apagados.
Enquanto eu lia um conto de ar
Enquanto eu lia um conto de ar,
tecias auroras, desertos em cascatas
e entretias alísios com trenos tão suaves
que nem os ventos se lembravam.
Eram segredos nossos dias,
lanternas de cantos noturnos,
graves e estranhos...
O céu à terra não se ligava
e o vento, seu louco menino de ar,
ainda nomos não ensaiava.
Fátua espada, faca temperada na corrente,
divino farol, que ao mar me lançava,
amando de assassinas ondas forjar.
Do silêncio
O silêncio percorre colunas e portais
criança nua, desdentada
sombra sem passo que a cada passo
aclara com arte um enigma.
O silêncio passou pela janela, clarim,
anunciando lutas em breve,
grandes batalhas contra jardins.
O silêncio passa novamente,
não me contenho, grito.
- Para dentro da árvore,
vamos para dentro da árvore!
E fui com o silêncio para dentro da árvore.
Paradoxo
Amo e desprezo a vida ao mesmo tempo
e, como o nauta, irmão da tempestade,
abjuro as ondas, escarneço o vento,
irmanado à ciclópica vontade.
Desconheço o futuro e meu passado
é onda, brisa, fumo, sonho altivo.
Mas houve tanto instante ensolarado
e tanta formosura que ainda vivo!
E nesta dupla sorte eu venço os dias;
ora aspiro à luz, ora indago à treva,
buscando unir opostas harmonias.
Em amor e desprezo a alma se inflama
e, qual aparição, ao céu se eleva
como a calçada verte o céu na lama.
Da vida dos pássaros
Quando o tetraédrico sol
(cuja majestade de pão e peixe,
disseminada até pela escuridão,
voa com os corvos)
é ocultado por nuvens de pássaros
e a tarde desbota, imagem antiga,
doce é caminhar na relva úmida
pisando serpentes com pés descalços.
Ciosos de chuva,
calendários entortam árvores,
alagados e ervaçais,
numa atmosfera que a água solidifica.
Saltam visões das crateras abertas;
arcanjos em carvalhos, florais cornamusas,
arbóreos tormentos, balés de teias negras.
Sobre a gruta anil está o unicórnio
e, mais acima, a gralha que lhe roubará os olhos.
De Safos nos abismos
Lançam-se os dias
como Safos nos abismos.
É bom morrer com a noite,
a noite total, que perfumará sua chaga.
Morremos noites seguidas e não só
empalados, enterrados vivos, crucificados.
Todas as tardes,
quando a corda do oceano
narra sua epopéia antiga
e as abelhas expectoram melíferos ninhos,
esfaqueio a alma das constelações
e morro como a cítara de um dia.
Ego vitro
Falo-te de fantasmas e visões,
dos queixumes do vento nas vidraças,
do estranho frio e as vítreas sensações
dessas vozes que vagam, sempre lassas.
Às vezes trago um frio de corrimões
na alma! um vento invernal que vem e passa
e me faz ser – espectro das monções –
canção gelada que espelhos embaça.
No cristal e no vidro há todo um risco,
uma sereia fria que invita a mente
a estados de alma lânguidos, dormentes,
um perder-se ante o olhar do basilisco.
Em frente ao espelho, eu tenho me despido
de reflexo e me vejo feito vidro.
Invernal
Suavemente, bem suavemente,
açoita o vento as rúbidas paisagens;
cola-se o rio, o fruto está doente
e a andorinha enrijece nas ramagens.
O inverno enfim chegou, fosforescente,
gelando as flores, tumbas e visagens,
gelando as flores, vítreas e dormentes,
cristal em pó, reluz como miragens.
Da paisagem monótona o aprumo
me fez rejubilar, ditou meu rumo
entre os brancos jardins e alvas latadas.
Não se vê onde acaba a neve e surge
a palidez marmórea que refulge
a minha sombra negra nas calçadas.
Disse a flor
Disse a flor,
pendendo o abismo:
“Destrói!”, canta o vento.
“Refulge!”, canta a aurora.
“Fenece!”, bradam os campos.
“Explica!”, diz o homem.
E o pesadelo dos homens
é a alegria dos animais.
ADQUIRA OS LIVROS/CDS DE ANDRÉ DE SENA PELO MAIL
bosquesdamoira@yahoo.com.br
As palavras
As palavras, imunes à lembrança,
flutuam na noite de coral,
inquietas hamadríades ao sabor dos ventos...
Escorregam pelos canteiros,
despem-se em arpejos vegetais,
borboleteiam a luz, antecipam as mariposas
e se deixam embalar nas ondas, turmalinas.
Na água branca, no cisne incolor,
por trás da paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge apenas a esfíngica morte
no grito de animal inventado,
fabular e inominável.
Mas são delas os lampiões apagados.
Enquanto eu lia um conto de ar
Enquanto eu lia um conto de ar,
tecias auroras, desertos em cascatas
e entretias alísios com trenos tão suaves
que nem os ventos se lembravam.
Eram segredos nossos dias,
lanternas de cantos noturnos,
graves e estranhos...
O céu à terra não se ligava
e o vento, seu louco menino de ar,
ainda nomos não ensaiava.
Fátua espada, faca temperada na corrente,
divino farol, que ao mar me lançava,
amando de assassinas ondas forjar.
Do silêncio
O silêncio percorre colunas e portais
criança nua, desdentada
sombra sem passo que a cada passo
aclara com arte um enigma.
O silêncio passou pela janela, clarim,
anunciando lutas em breve,
grandes batalhas contra jardins.
O silêncio passa novamente,
não me contenho, grito.
- Para dentro da árvore,
vamos para dentro da árvore!
E fui com o silêncio para dentro da árvore.
Paradoxo
Amo e desprezo a vida ao mesmo tempo
e, como o nauta, irmão da tempestade,
abjuro as ondas, escarneço o vento,
irmanado à ciclópica vontade.
Desconheço o futuro e meu passado
é onda, brisa, fumo, sonho altivo.
Mas houve tanto instante ensolarado
e tanta formosura que ainda vivo!
E nesta dupla sorte eu venço os dias;
ora aspiro à luz, ora indago à treva,
buscando unir opostas harmonias.
Em amor e desprezo a alma se inflama
e, qual aparição, ao céu se eleva
como a calçada verte o céu na lama.
Da vida dos pássaros
Quando o tetraédrico sol
(cuja majestade de pão e peixe,
disseminada até pela escuridão,
voa com os corvos)
é ocultado por nuvens de pássaros
e a tarde desbota, imagem antiga,
doce é caminhar na relva úmida
pisando serpentes com pés descalços.
Ciosos de chuva,
calendários entortam árvores,
alagados e ervaçais,
numa atmosfera que a água solidifica.
Saltam visões das crateras abertas;
arcanjos em carvalhos, florais cornamusas,
arbóreos tormentos, balés de teias negras.
Sobre a gruta anil está o unicórnio
e, mais acima, a gralha que lhe roubará os olhos.
De Safos nos abismos
Lançam-se os dias
como Safos nos abismos.
É bom morrer com a noite,
a noite total, que perfumará sua chaga.
Morremos noites seguidas e não só
empalados, enterrados vivos, crucificados.
Todas as tardes,
quando a corda do oceano
narra sua epopéia antiga
e as abelhas expectoram melíferos ninhos,
esfaqueio a alma das constelações
e morro como a cítara de um dia.
Ego vitro
Falo-te de fantasmas e visões,
dos queixumes do vento nas vidraças,
do estranho frio e as vítreas sensações
dessas vozes que vagam, sempre lassas.
Às vezes trago um frio de corrimões
na alma! um vento invernal que vem e passa
e me faz ser – espectro das monções –
canção gelada que espelhos embaça.
No cristal e no vidro há todo um risco,
uma sereia fria que invita a mente
a estados de alma lânguidos, dormentes,
um perder-se ante o olhar do basilisco.
Em frente ao espelho, eu tenho me despido
de reflexo e me vejo feito vidro.
Invernal
Suavemente, bem suavemente,
açoita o vento as rúbidas paisagens;
cola-se o rio, o fruto está doente
e a andorinha enrijece nas ramagens.
O inverno enfim chegou, fosforescente,
gelando as flores, tumbas e visagens,
gelando as flores, vítreas e dormentes,
cristal em pó, reluz como miragens.
Da paisagem monótona o aprumo
me fez rejubilar, ditou meu rumo
entre os brancos jardins e alvas latadas.
Não se vê onde acaba a neve e surge
a palidez marmórea que refulge
a minha sombra negra nas calçadas.
Disse a flor
Disse a flor,
pendendo o abismo:
“Destrói!”, canta o vento.
“Refulge!”, canta a aurora.
“Fenece!”, bradam os campos.
“Explica!”, diz o homem.
E o pesadelo dos homens
é a alegria dos animais.
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bosquesdamoira@yahoo.com.br


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