Poemas catalogados pela Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (copyright do autor). Proibida a reprodução sem prévia autorizaçãoAbditae causae
Fraco mortal, que aspiras às sutis essências,
ao círculo das formas, ser das aparências,
qual cristalina água, a perscrutar o seio
do que há intangível, à matéria em meio,
estás cansado e choras (só te embala o vento
o ecoar da ampulheta num abismo lento)
e, cerzindo a tristeza triplos espantalhos,
ousas vibrar ainda o alaúde em atalhos.
Porque por mais que busques a tudo o silêncio
(o silêncio é cantar para os astros suspensos,
a música inaudível das esferas vastas –
tem-se a impressão mas nunca o som e a nota casta),
cantando seguirás, mesmo em padecimento
de, na verdade, não haver ouvido atento.
E o entardecer se expande em fogo na floresta;
há vária explicação e, também, vária festa:
é bom ouvir às árvores e aos animais,
às estéreis montanhas que exsudam cristais,
aos gemidos dos ventos adensando a trama
das águas nos rios, de verdes bosques às ramas;
como cabrito atado à mãe e à dura teta,
se entretém os infantes co’ agrestes cornetas...
toda a natura segue a prumo seus alvitres,
somente o ser pensante e o poeta, estes biltres,
apartam-se de tudo, buscando esse tudo –
e responde o universo só um grito mudo.
São necessários sismos à rija estrutura,
conhecidos venenos a aprestar as curas;
assim o canto irrompe e o solitário vate
encetará co’a própria lira um vão combate
(oleiro do vazio, em sonhos se desdobra,
que decerto é ilusão alquimia e grã obra;
por mais difícil que seja, crê na aventura –
que a razão é a loucura da própria loucura);
porém à força mesmo de enformar os ventos
mostrarás quão profundos são os teus lamentos.
As palavras
As palavras, imunes à lembrança,
flutuam na noite de coral,
inquietas hamadríades ao sabor dos ventos...
Escorregam pelos canteiros,
despem-se em arpejos vegetais,
borboleteiam a luz, antecipam as mariposas
e se deixam embalar nas ondas, turmalinas.
Na água branca, no cisne incolor,
por trás da paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge apenas a esfíngica morte
no grito de animal inventado,
fabular e inominável.
Mas são delas os lampiões apagados.
Enquanto eu lia um conto de ar
Enquanto eu lia um conto de ar,
tecias auroras, desertos em cascatas
e entretias alísios com trenos tão suaves
que nem os ventos se lembravam.
Eram segredos nossos dias,
lanternas de cantos noturnos,
graves e estranhos...
O céu à terra não se ligava
e o vento, seu louco menino de ar,
ainda nomos não ensaiava.
Fátua espada, faca temperada na corrente,
divino farol, que ao mar me lançava,
amando de assassinas ondas forjar.
Do silêncio
O silêncio percorre colunas e portais
criança nua, desdentada
sombra sem passo que a cada passo
aclara com arte um enigma.
O silêncio passou pela janela, clarim,
anunciando lutas em breve,
grandes batalhas contra jardins.
O silêncio passa novamente,
não me contenho, grito.
- Para dentro da árvore,
vamos para dentro da árvore!
E fui com o silêncio para dentro da árvore.
Paradoxo
Amo e desprezo a vida ao mesmo tempo
e, como o nauta, irmão da tempestade,
abjuro as ondas, escarneço o vento,
irmanado à ciclópica vontade.
Desconheço o futuro e meu passado
é onda, brisa, fumo, sonho altivo.
Mas houve tanto instante ensolarado
e tanta formosura que ainda vivo!
E nesta dupla sorte eu venço os dias;
ora aspiro à luz, ora indago a treva,
buscando unir opostas harmonias.
Em amor e desprezo a alma se inflama
e, qual aparição, ao céu se eleva
como a calçada verte o céu na lama.
Da vida dos pássaros
Quando o tetraédrico sol
(cuja majestade de pão e peixe,
disseminada até pela escuridão,
voa com os corvos)
é ocultado por nuvens de pássaros
e a tarde desbota, imagem antiga,
doce é caminhar na relva úmida
pisando serpentes com pés descalços.
Ciosos de chuva,
calendários entortam árvores,
alagados e ervaçais,
numa atmosfera que a água solidifica.
Saltam visões das crateras abertas;
arcanjos em carvalhos, florais cornamusas,
arbóreos tormentos, balés de teias negras.
Sobre a gruta anil está o unicórnio
e, mais acima, a gralha que lhe roubará os olhos.
De Safos nos abismos
Lançam-se os dias
como Safos nos abismos.
É bom morrer com a noite,
a noite total, que perfumará sua chaga.
Morremos noites seguidas e não só
empalados, enterrados vivos, crucificados.
Todas as tardes,
quando a corda do oceano
narra sua epopéia antiga
e as abelhas expectoram melíferos ninhos,
esfaqueio a alma das constelações
e morro como a cítara de um dia.
Ego vitro
Falo-te de fantasmas e visões,
dos queixumes do vento nas vidraças,
do estranho frio e as vítreas sensações
dessas vozes que vagam, sempre lassas.
Às vezes trago um frio de corrimões
na alma! um vento invernal que vem e passa
e me faz ser – espectro das monções –
canção gelada que espelhos embaça.
No cristal e no vidro há todo um risco,
uma sereia fria que invita a mente
a estados de alma lânguidos, dormentes,
um perder-se ante o olhar do basilisco.
Em frente ao espelho, eu tenho me despido
de reflexo e me vejo feito vidro.
Invernal
Suavemente, bem suavemente,
açoita o vento as rúbidas paisagens;
cola-se o rio, o fruto está doente
e a andorinha enrijece nas ramagens.
O inverno enfim chegou, fosforescente,
gelando as flores, tumbas e visagens,
gelando as flores, vítreas e dormentes,
cristal em pó, reluz como miragens.
Da paisagem monótona o aprumo
me fez rejubilar, ditou meu rumo
entre os brancos jardins e alvas latadas.
Não se vê onde acaba a neve e surge
a palidez marmórea que refulge
a minha sombra negra nas calçadas.
Disse a flor
Disse a flor,
pendendo o abismo:
“Destrói!”, canta o vento.
“Refulge!”, canta a aurora.
“Fenece!”, bradam os campos.
“Explica!”, diz o homem.
E o pesadelo dos homens
é a alegria dos animais.
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